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15 de mai de 2014

CRÔNICAS E POEMAS DO DR. PAULO REBELO

Dr. Paulo Rebelo e sua esposa, a Dra. Bernadete no Parque Ecológico Torres del Paine, na Patagônia Chilena (Lago Grey)
O Dr. Paulo Roberto Campbel Rebelo é médico cardiologista em Macapá - AP e escritor
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O ATOR
(Um breve ensaio sobre a vida do médico)

A público vai àquela sala de espetáculo teatral em busca de algo que a encante e responda aos seus anseios. Os rostos são incógnitos, mas a cada dia se transformam.

As peças ali encenadas naquele palco são tão intensamente humanas que ora empolgam ora entristecem, ora aliviam ora emudecem, sendo repletas de dramas e conflitos pessoais, devido ao constante embate entre o ator e cada ser humano da plateia. Os olhos penetrantes do público, como que perscrutando a alma do artista e vice-versa, estão atentamente voltados para qualquer palavra ou gesto de cada parte.

O médico tal como o ator é o protagonista diário da apresentação, todavia a razão maior de sua existência é mesmo a diversificada audiência que não pode ser desapontada, sob pena de ser ele próprio criticado, porquanto se espera dele muito nesse momento. Antes de entrar em cena, já há um nítido clima de expectativa. Seu maior inimigo é a enfadonha e mortal rotina. No consultório, porém, lá no recôndito de sua alma, está o solitário médico com seus pensamentos, recaindo sobre ele o enorme peso do protagonismo diário; ele sabe que o seu sucesso depende de uma boa relação com o seu público, pois ele ensaiou tantas vezes, para isso controlando seus próprios sentimentos até que sua dor desaparecesse por completo atrás de um sorriso, pois é necessário que o espetáculo continue.

A espera para a consulta parece longa. É natural a ansiedade de véspera, afinal, são todos seres humanos. Então, como num passe de mágica, é anunciado o início do atendimento; ocorrem as primeiras impressões de ambos os lados. Dominado o receio do desconhecido e do acaso, o médico subleva sua própria existência, nesse momento, transmutando-se num verdadeiro artista já que, há muito tempo, estudara muitos casos clínicos e aprendera a arte de atender com maestria, às vezes, por mero instinto ou por auto aprendizado, sempre seguindo os passos de seus velhos mestres, quando, uma vez no passado distante, ensinaram-lhe que: “UM GRANDE ATOR SÓ DEVE ENTRAR EM CENA QUANDO ESTIVER PREPARADO!”.

Abre-se a porta; a consulta vai começar
 
Paulo Tarso Barros e o Dr. Paulo Rebelo
na sua Cardioclìnica do Hospital São Camilo (julho/2017)


AMIGO


Eu tenho tantos amigos que perco a conta. Dizem que os verdadeiros amigos são poucos, não sei. Exageram; acabam esquecendo dos seus próprios irmãos.
São pessoas que nunca me emprestaram um tostão sequer nem me fizeram pedidos ou favores absurdos, mas um dia, quando eu mais precisei de apoio, me deram uma palavra de conforto, um forte abraço fraterno. Quando me viam, logo sorriam. Quando estive feliz, curiosos, queriam saber o motivo, quando estive triste e chorei me consolaram, quando sumi, sentiram a minha falta e se preocuparam, ligaram-me, mandaram-me uma tocante mensagem ou um fraterno, dizendo "por onde estiveste?" Quando tive conquistas, vibraram muito comigo. Quando pensei que estivesse ficando louco, me ajudaram a pensar. Quando perdi a batalha disseram-me "levante a cabeça e siga adiante". Quando me senti derrotado, disseram "estou teu lado para o que der e vier". Quando estive cheio de dúvidas, me esclareceram, quando tive medo, me fortaleceram, quando estive enfermo me visitaram, quando estive perdido, me resgataram e quando fiquei desorientado, foram verdadeiras bússolas na minha vida, mas olha, quando fiz besteiras, me aconselharam muito e até me xingaram; me aborrecia e me cansava de suas falas, mas quer saber, no fundo, eu merecia ouvir mesmo aquilo e os agradecia muito pelos conselhos e até broncas. Portanto, nunca me abandonaram. Sempre tive um ombro amigo. Assim, cresci acostumando-me com eles, necessitado deles e quando fico algum tempo sem vê-los ou saber por onde estão, pareço deslocado e a vida vai perdendo a graça. Talvez isso seja o significado da passagem tempo. As suas existências são como um discreto, mas permanente porto seguro. Longe deles sou uma árvore desfolhada no inverno; próximos de mim me fazem sentir viçoso como um campo verdejante após a chuva, repleto de canto de pássaros. 



A LUZ DIVINA


Eu encontrei a LUZ a tempo,
Antes que ela se fechasse para sempre;
Busquei amar a todos antes que a cortina baixasse.
Um dia cheguei mesmo a pensar que já fosse tarde demais e então, simplesmente morri...
Eis que com a ajuda ou com a simples presença 
de pessoas queridas ao meu lado,
A vida me foi mais do que paciente e generosa. É que DEUS prontamente lhes disse:
“Ele tem salvação!”. Assim, foi me dado um outro destino; não há nada mais que eu possa fazer a não ser continuar refazendo e fazer, reconstruir e construir obras imateriais...
Despertei, enfim!
Dessa forma, livrei-me de mim mesmo, de meus vícios, dos maus hábitos, de sonhos erráticos.
Estou realizado com o tenho e agora, de fato, seguramente, estou feliz com o que sou.
E quando eu estiver velho e já com os meus sentidos comprometidos, serão tão somente minhas belas memórias coletadas a me embalar e a me confortar. Não estarei sozinho. acredite. Sorrindo estarei.
Tu me encontrarás sereno, em paz, feito as pazes comigo mesmo e com o mundo contra o qual tantas vezes lutei em vão, ainda mais, com armas erradas.

E chegado o derradeiro momento, direi em solilóquio: “Sim, eu tive uma vida fecunda” e todos aqueles que viveram ao meu lado, tendo reconhecido o meu amor pela vida, haverão de concordar, dizendo ter sido isso realmente verdadeiro.


A VISITA

Um caso a pensar...
(a vida de um médico como ela é)
Atendi uma senhora de 75 anos visivelmente mal tratada pela vida que levava. Nessa semana, mais uma vez, ainda que buscasse não me irritar com sua aparente desatenção, isso era missão quase impossível. Sempre vinha desacompanhada e com alguma dificuldade auditiva e visual, falava muito pouco, sempre se queixando de intermináveis e insondáveis dores físicas variadas; era desagradável repetir 3-4 vezes o que deveria fazer quanto aos seus exames e tratamento. Como que para se proteger, a desculpa reticente era que os quatro filhos estavam sempre muito ocupados para vir para a sua consulta.

Entre outras coisas, iniciado o tratamento com antidepressivo, com trinta dias, passou a se abrir um pouco mais sobre sua vida. Até já esboçava um leve sorriso. Viúva, no fundo sentia-se solitária e abandonada pelos filhos com os quais pouco falava, mesmo morando todos na mesma cidade...

Fui tomado por um sentimento de autocensura, piedade, seguida de profunda empatia por aquela pobre criatura. Como médico, nessa hora, o que fazer além de escutá-la? Logo percebi que eu era ainda uma das poucas pessoas com as quais ela se apegara para manter a esperança que valia a pena viver como um rastilho de pólvora. À sua estranha maneira de ser ela buscava valorizar aquela consulta, para mim mera rotina, que parecia ser a visita à casa de um grande amigo que jamais tivera um dia...                      



O NÁUFRAGO

Houve um tempo em que não sei precisar exatamente quando, como nem o porquê,
acreditei que já estivesse maduro, homem feito e lapidado através de incontáveis batalhas que duramente enfrentei, por conseguinte, imune aos tempestuosos ventos da paixão.

Posto que n'alma, feridas cicatrizadas, insidiosamente cri, pia e secamente, que isso fosse algum tipo de ludismo, às vezes, uma brincadeira infantil, por certo, de mal gosto na maturidade, quando, sem retorno, adoecem corpo e mente, muito padecem, literalmente morremos como galhos secos, mumificados!

Eis que um dia como outro qualquer, juro por tudo o que é mais sagrado, sem que eu desejasse ou sem que soubesse que no recôndito de mim ardentemente desejasse , jazia em mim num sono profundo repleto de sonhos hibernados, latente, aflorou como lavas incandescentes de vulcão, uma incomum e arrebatadora paixão.

Em meu coração, sem luzes o palco, seca terra inóspita para semear o amor, como que depois de longas noites frias e desoladoras de inverno inclemente, sob o sol primaveril, explodiram campos idílicos em miríades de aromas, luzes e cores de todos os gêneros e formas nunca d'antes vistas nem sentidas por um ser humano; como um belo pássaro, meu corpo inteiro gorjeou num oceano de alegria.

Exímio conhecedor dessa armadilha fatal que é a paixão, supus eu se tratar de mais um desses ardilosos e infrutíferos jogos do amor com os quais eu lidava com maestria, soberano e enfadonhadamente os esnobava.

Continente cerrei firmemente um gigantesco paredão de concreto e do mais puro aço até então conhecido, contra esse destrutivo impulso para me auto proteger de algo que outrora me fizera sofrer, cujo saldo final me deixara assim; sem nenhuma ilusão com o amor, logo eu amadurecido, quiçá marmóreo e embrutecido.

Contudo, nenhum aviso de perigo dos instantes da minha personalidade que se digladiavam ferrenhamente entre si para me dizer como me salvar, nem dos sábios conselhos de meus amigos foram capazes de impedir que essa descomunal vaga varresse meu corpo, agitando-me para todos os hemisférios, ao sabor dos ventos fortes e cálidos; assim mesmo afogado em mim mesmo, insano mais eu a desejava ao desvario inaudito.

Tudo em vão, pois nenhum remédio parecia curar ou mitigar a minha dor que teimava fingir não sentir; a boca seca e adstringente, a aflição opressiva sobre o meu peito e asfixiante, palpitações excruciantes; pensei: mil vezes morrerei!

Parado no tempo, extemporâneo assim fiquei, fora de compasso com mundo contemporâneo. Entretanto, ela e suas densamente fugazes mensagens de texto de amor, sutilmente sem limites que vinham e iam na velocidade da luz, na forma de flashes, símbolos e imagens suas erotizadas, malmente sedimentavam, me inundando num êxtase que nunca havia experimentado.

Mas, curiosamente, um dia, assim como ela veio ela se foi; subitamente emudeceu num atroz silêncio, em mim criando um abismo, acreditando eu como se há séculos de amor tivessem passados num átimo de segundo, atônito fiquei entregue à inanição sentimental.

Atropelado por uma nova forma de amor superficial, veloz, volúvel e consumista, completamente desconhecida e assustadoramente nova para mim, me tomou de paralizante surpresa.

Absorto e desalentadoramente perdido, depois de muito vagar, fui atirado aos mares como uma garrafa mensageira de um náufrago em perigo, sujeito às imprevisíveis correntes marinhas, torcendo para que um dia, em algum distante lugar, noutro tempo, quem sabe menos turbulento, venha eu a ser resgatado pelo verdadeiro amor que agora sei, de fato, jamais ter vivido!


CARTA AO FILHO LONGÍNQUO


Meu filho,

Aguente firme a distância, a saudade, o frio, as noites de solidão...
Os teus desafios intermináveis e problemas não resolvidos só aumentam a tua e nossa dor. Esse é o destino.

Parece que adoecemos juntos, nos enfraquecem nossos sonhos conjuntos. Fraquejamos na fé. Isso é humano!
Nada podemos fazer a não ser pedir ao CRIADOR que Ele ilumine teus caminhos... Que Ele nos conforte.

Ao deixares a nossa casa, nós pais o permitimos e te incentivamos com o coração partido, cientes que fizemos por ti o nosso melhor, ainda que inseguros e repletos de dúvidas, de defeitos inconscientes, mas esperançosos!

É que um dia contestamos nossos pais, também; fomos irreverentes, ousados, sonhadores, aventureiros e irresponsáveis.
Assim como o foi para nós, sabíamos que esse derradeiro dia iria chegar e tu, nós, teus pais, seríamos postos à prova de fogo!
Aqui estaremos sempre esperando pelo dia em que tu voltarás para nossa casa, para nos demonstrar toda a glória de tuas grandes conquistas!
Diremos, então, para o mundo que um dia ousou nos desafiar:

VENCEMOS!
Teu pai, Paulo Rebelo, 2014.

Dr. Paulo Rebelo (no centro da foto) com os seus familiares


A VIDA DO MÉDICO COMO ELA É

Aquele era mais um dia laboral como outro qualquer. Como de costume, na padaria, fazia ele o seu desjejum quando subitamente sentiu um forte golpe no peito, seguido de palpitações rápidas e incessantes. Logo veio a sensação terrivelmente angustiante de dispneia e mal-estar indizíveis. Quis ele fugir dali. Tossiu com força, prendeu a respiração, caminhou para lá e cá e nada! Percebeu que pouco a pouco piorava; náuseas, sudorese fria agora lhe acompanhavam; chamou-lhe atenção quando alguém disse esbaforidamente: - “Meu Deus! O senhor está pálido!” Não sabe dizer como chegara à UBS, pois sentia a morte à espreita. A enfermeira recém-formada não conseguiu medir sua pressão nem pulso. O médico julgou que fosse por falta de experiência, mas nem ele pôde fazê-lo! Ainda consciente o jovem paciente negou que tivesse ingerido bebida alcoólica, que usasse droga ilícita ou tomado qualquer medicamento. Não havia história de doença cardíaca na família. Dizia estar estressado e ansioso, mas nada que comprometesse o seu bem estar geral.
Por um breve instante o médico parou para pensar diante da gravidade do caso e que não estava na emergência de nenhum grande hospital. Parecia ele mesmo querer passar mal. E agora? Pensou ele: não havia medicamento adequado ali. Absorto nesse rodopiante pensamento, o rosto severo de Hipócrates lhe surgiu claramente na mente. Disse-lhe a imagem: - “Aplique-lhe um VALSALVA! VAL-SAL-VA!” O paciente já agora agonizava com a pressão arterial inaudível e frequência cardíaca mais rápida do que a de um beija-flor. Sua cor era cérea e sua pele fria e pegajosa. Estava em estado de choque, denunciando que a morte se aproximara. O médico falou alto para que o paciente deitasse na posição supina e que trouxesse as suas coxas fortemente abraçadas de encontro ao peito. Era a uma manobra vagal. Depois de poucos segundos, como tendo dado um reset no computador, nem o próprio médico acreditou quando o ritmo cardíaco voltara ao normal e PA, 12 por 8! Como num passe de mágica, parece que tudo havia sido completamente irreal.
O olhar de admiração e respeito de todos ali, o choro copioso do paciente, entrecortado de declaração espontânea e sincera de "muito obrigado, doutor!", dita várias vezes, demonstraram que não havia sido um pesadelo; havia um visível ar de alívio geral. Em silêncio, encheu-se o médico de um orgulho pessoal contido e solitário.
No caminho para atender outro paciente, mal tendo tempo para refletir sobre o acontecido, pensou:- “UFA! Graças a DEUS!” Pensou ele em HIPÓCRATES, quisera agradecer a VALSALVA, pensou naquele desconhecido que não gravara o seu nome e que este não pôde sequer perguntar o nome do médico que o havia salvado. Pensou nos pais, na sua profissão, na esposa e filhos, pensou em si mesmo, ele mesmo um desconhecido para muitos... Tudo girou. Por fim, recompondo suas forças, disse para si: - “Isso é obra do CRIADOR. Sou apenas LUCAS, o SEU servo. É mais uma MISSÃO CUMPRIDA apenas!”.
Parecia querer espichar para mais longe seu pensamento enquanto levitava, quando ouviu a enfermeira dizer candidamente, mas em tom firme: - “Doutor, a dona Florentina está com a pressão muito alta! Se apresse!”.

Seu cafezinho já esfriara. Mal havia sentado, respirou fundo, contou até três e pensou: “Mãos à obra!”.






UM TEMPO INESQUECÍVEL QUANDO O MÉDICO ERA O

PRÓPRIO REMÉDIO




Ainda sou do tempo em que a ida ao consultório médico era um acontecimento quase que mágico. Minha mãe dizia com muita convicção, que aquela visita há muito agendada era o nosso compromisso mais importante do dia, talvez da semana. Éramos acordados mais cedo do que o usual. Vestíamos nossas melhores roupas. Havia certa excitação no ar, certo “frisson”, ainda que estivéssemos com alguma doença. Sair de casa já era diferente. Um pouco antes do amanhecer, o almoço estava garantido, pois ela o deixava pronto. Depois de tomar o café da manhã, lá íamos todos de lotação. A viagem era agradável. Os menores passavam por debaixo da roleta. No caminho, ela já nos avisava para que nos portássemos muito bem, pois a demora em começar o atendimento seria invariavelmente certa. A agenda do médico era sempre cheia, mas valia a pena esperar.

Aquele era o médico de sua confiança. Segundo ela, ele era o melhor pediatra. Era o médico que eu gostava, também.
Ansiosamente aguardado por todos, ele chegava quase sempre atrasado. Era compreensível. Todos ali sabiam que ele era um homem muito ocupado. Vinha de outro hospital. De um modo geral, não havia queixas maiores; no máximo um comentário aqui e acolá que o médico estava demorando. Curiosamente, lá parecia ser também, um ponto de encontro de velhos conhecidos. Aproveitava-se aquele raro momento para conversas parecendo intermináveis, às vezes, alarmistas sobre alguma doença “misteriosa”. Faziam-se comentários sobre as manchetes de jornais e notícias do rádio ou ainda sobre das vivências e experiências pessoais e familiares cotidianas, mas, sobretudo sobre o quanto aquele médico era atencioso e dedicado à sua profissão.
Ao passar sorrindo pela sala de espera rumo ao seu consultório, cumprimentava a todos com um efusivo “bom dia!”, claramente reconhecendo uma ou outra criança, chamando-a pelo nome.
Gostava muito de toda aquela atmosfera, ainda que às vezes, alguém dissesse sussurrando: “te aquieta menino senão o doutor vai te dar uma injeção!” (pensava mesmo eu que fosse comigo), algo que ele mesmo nunca o fez. O choro que se ouvia era daquelas crianças incomodadas pela própria doença. Muito são reminiscências. Guardo, entretanto vivo na memória, aquele ar de hospital, e enquanto ele prescrevia a receita com sua clássica e quase indecifrável caligrafia, ano após ano, quase sempre ele perguntava-me o que eu queria ser quando crescesse. (creio que, no íntimo, eu já tivesse uma pálida ideia).
Dizia: “abra a boca”... ”Assim... AAH... muito bem!”... “Respire fundo... de novo... huum”...
”Diga trinta e três”... “Agora, tussa!” Como aquilo tudo era diferente!
Terminado o exame, passando a mão na minha cabeça, ao dizer para minha mãe com firme convicção “ele vai ficar bom!”, é estranho, mas sinto como se fosse ainda hoje, que ao sairmos de seu consultório, eu já estava com uma fortíssima e reconfortante sensação de estar curado ou com os meus sintomas completamente aliviados sem sequer ter tomado um único medicamento seu!

* * * *
EU A VI!

Às vezes, já completamente absorto em seus pensamentos, num estado quase onírico, ele se perguntava a todo instante se aquele belo ser que acreditava ter visto outro dia poderia ser, de fato, real ou fruto de mais um de seus loucos sonhos; de qual estrela teria ela caído? Ou seria ela a própria estrela?
Certa noite fria, arrebatado por aquela visão que o atormentava, imaginou ser ele um dos Reis Magos e que, realmente, vira uma linda estrela cadente no firmamento. Guiado por forte emoção, pôs-se a caminhar apressadamente ao seu encontro, na longa e escura noite adentro.
Imaginou estar com ela, mas... dizer-lhe exatamente o quê? Que ele estaria por ela encantado? Que gostaria que dele fosse ela sua propriedade eterna? E se não tivesse a coragem de dizê-lo, o seu olhar seria capaz o suficiente de transmitir-lhe a intensidade e forma de tudo o que sentia por ela? Ela o entenderia? Queria tocá-la com suas próprias mãos, acariciar densa e suavemente seu rosto por um breve momento apenas, somente para materializá-la dentro de si para sempre. Ela o rejeitaria? Enfim, o que fazer se ela nem sequer o conhecia?! Por um instante, ficou aflito e inseguro. Confuso, perdeu a voz. Seus olhos marejaram.
Acordou transpirando frio, mas o corpo ardia como brasa. Com o coração palpitando a mil, faltou-lhe o ar, fugiu-lhe a luz. Imaginou ter chegado o seu fim. Não! Era mais um daqueles sonhos, enfim. Aliviado, sob pálidos traços de lucidez, vagamente sorrindo para si mesmo, se deu conta de que uma imagem tão real ou imaginária, daquela mulher tão bela, não era para ser posse sua jamais, mas para ser contemplada e sentida infinitamente, como quem respira o ar para continuar vivo, pois ela não só pertencia à beleza radiante do mundo como ela mesma era a própria, o ponto alto de sua criação; o mundo se expressara e se completava através daquele ser tão lindo e puro... Assim, amá-la-ia dessa forma, resignou-se ele, pois se a aprisionasse em seu coração, na sua mente, como incontáveis vezes assim o desejou ardentemente para toda a eternidade, pensou ele, ela perderia o viço; o mundo, cor e graça.
Ele, também, por fim, definharia.
Então, compreendendo a grandeza e a razão da existência daquela bela criatura, indelevelmente marcado por ela, ambos finalmente livres e ele, agora em paz, tomado por um imenso e transbordante contentamento daquele tipo impossível de ser humanamente contido, disse bem alto e confiante para si e para todo o universo ouvir- “Acreditem todos, eu a vi e a amei! Não foi um sonho!”. 

Paulo Roberto Campbell Rebelo 
é médico cardiologista




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P  O  E  M  A  S

AMAREMOS


Ainda choras por amor...

Não te machuques mais

Porquanto não permita que tua desilusão
Se torne um desencanto com o amor
Não seria justo contigo
Não seria justo com o verdadeiro amor
Sei bem o que é isso

Parece que morreremos em breve

Houve um tempo, por isso, sofri também...
Dessa forma, te peço; cerre teus olhos agora

Logo imagine alguém enxugando docemente as tuas lágrimas
Enquanto longe o teu pensamento se esvai
Pode ser o mesmo algoz de teu sofrimento
Que tu o desejas tanto e perdoas
Só tu sabes o porquê
Ou outro que vem para mitigá-lo
Para redescobrir o teu sublime amor...

Sentes a suavidade de suas mãos tépidas acalentado o teu rosto?

Sim, pois afaga ele os teus cabelos melodiosamente entre os dedos
Agora ele te beija delicadamente com seus doces lábios molhados
Os teus sedentos lábios secos e salobros
Respire fundo. Sentes? Estás viva, sim!
Agora livre da dor, amada como verdadeiramente deverias ser para todo o sempre
Adormeces em meus braços...


¨¨ * * ¨¨ 

TU SENTES?

Amor meu,
Tu sentes o que sinto?
As ondas do mar azul que te observam com encanto?
O vento de proa desalinhando teus longos cabelos

Entre o sol que maliciosamente beija a tua pele e que enganosamente finge não te dourar?
Sim, estás segura disso; o teu belo sorriso monalístico te trai.
Somos todos teus agora...


ACORDEI


Acordei.
Transpirava muito.
Sonhava contigo
E então, pensei em nós;
Sobre aquela longa noite de frio aquecida por nossos corpos
E sobre o que ainda há de ocorrer
Pois, de minha parte, já não há mais freios nem balizas, tampouco, avisos de perigo.
Ontem isso me assustava como nunca.
Agora não me assusta mais.
Logo, a pulsão para continuar ao teu lado é infinitamente maior.
Não penso mais n' outra coisa a não ser em ti como numa cena recorrente de um filme.
A tua imagem não me deixa mais dormir a não ser te respirar!
Creio que já exagerava no amor idílico e pueril, no encanto de outrora, mas nada igual como hoje...
Aliás, tudo comigo tem sido tão irreal, tão total.
Tudo tão desmedido e irresponsavelmente sem fronteiras e desgovernado pelo que cultivei por ti. Ainda assim, saiba que me sinto seguro nesse longo e tortuoso caminho.
Sentes isso por mim, também? Preciso sabê-lo. Não suportaria que fosse nada desigual entre nós!
Na assombrosa velocidade da ânsia de te possuir e medo de, de repente, te perder,
Há uma avassaladora paixão.
Um instante é tudo que preciso.
Estive morto por toda a minha existência e nem sequer disso sabia.

Passei a viver a partir de ti, doravante por ti!




INSÔNIA


Acordou no meio da madrugada.
Mais uma longa noite insone...
Desejava poder ter dormido mais
Para escapar daquela eterna prisão à qual se condenou injustamente num auto julgamento absurdo e irreal
E libertar-se de sua crônica dor e, em toda plenitude,
Gozar o glorioso e merecido idílio matinal, finalmente.
Venceu, todavia, a implacável e silenciosa noite escura, atroz,
Repleta de pensamentos insondáveis, acompanhadas recorrentes imagens confusas e pálidas em cine loop.

Exposto esteve e refém mais uma vez de suas angústias e medos,
Desprotegido como uma criança,
Refugiando-se sob os lençóis,
Paralisado pelo temor.
Se dormisse mais, quem sabe, lá estaria ele iria embalado por suas fantasias, sonhos de amores pueris ou paixões arrebatadoras. Não haveria mais perigos; navegaria por mares seguros, voaria como um pássaro; no recôndito de sua alma, onde aves e peixes naturalmente se amam livremente.
Lá no sono REM não teria ele o que temer; enfim, lá ele se reconheceria como sempre desejou ser, seria indulgente consigo mesmo e não mais se penitenciaria nem se puniria pelo que não teve culpa alguma nem participação.
A noite, por fim, seria sua amada e eterna companheira...


Um comentário:

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
ecos
de
la
tarde
callada
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


COMPARTIENDO ILUSION
APES

CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...




ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LABERINTO ROJO LEYENDAS DE PASIÓN, BAILANDO CON LOBOS, THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA …

José
Ramón...