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14 de out de 2014

O MITO DA JUVENTUDE NA LITERATURA

Opinião

Escritor: jovem, bonito, simpático...



O autor jovem está em alta. Quem observou foi a minha colega de Digestivo Eugenia Zerbini em sua última coluna. Ela esteve na última Flip e se surpreendeu com a ênfase dada, na apresentação de alguns escritores, à sua qualidade de "jovem". Era "jovem escritor" pra cá, "jovem escritora" pra lá.

O mito da juventude, tão explorado pelo marketing e pela moda, seria o novo filão do mercado editorial, concluiu ela, espantada quando soube de uma agente literária especializada na faixa etária mais baixa. "Mas você já tem 30 anos!", imaginei a tal agente argumentando a um candidato a fazer parte de seu "cast". E o coitado se arrependeria de ter preferido ler alguns clássicos antes de começar a escrever o primeiro romance. A escrita, como se sabe, parte sempre da leitura. Mesmo se considerarmos a vertente que defende uma boa biblioteca como mais relevante do que uma experiência de vida alentada (numa espécie de disputa entre a literatura erudita de Borges e a aventureira de Hemingway), algum tempo físico se faz necessário ao jovem para tornar-se de fato um escritor.

Em determinados ofícios, ao contrário, a pouca idade é imprescindível. Em geral, são aqueles relacionados à aparência ou desenvoltura física, como no caso dos atletas e modelos. Sempre achei muito triste a carreira curta dessas pessoas, consideradas "velhas" com vinte e poucos anos. Se não despontaram ainda adolescentes, logo são abandonadas por treinadores, tutores e empresários, todos de olho em "novas promessas" - em geral crianças treinadas por seus pais desde cedo para serem tenistas de ponta, virtuosos da música clássica, primeiras bailarinas. Ou ainda novas Giseles, tão logo revelem corpos esguios e rostos exóticos.

Quando ouço na TV um comentarista vaticinando, com naturalidade, que aquela será a última Olimpíada ou Copa do Mundo de determinado atleta, imagino o pânico de viver tal contagem regressiva tão cedo. Como se fosse uma primeira morte, antes daquela que será precedida pela velhice real.

Agora, faria sentido um autor ser considerado "velho" porque "já" tem 40 ou 50 anos? Porque não é mais uma promessa mercadológica? Mesmo sem sentir-se descartado, se apostar em suas qualidades literárias, ele deve perceber que a juventude tornou-se um atributo hoje desejável ao qual não tem mais condições de corresponder.

Como a escrita não exige esforço ou desenvoltura física, duas hipóteses justificariam o interesse maior por um jovem escritor do que por outro que não pode ser apresentado desta forma. A primeira é a de que a aparência física, em tempos de feiras literárias, palestras e muita exposição pública, precise atender aos parâmetros de beleza e juventude vigentes no mundo das celebridades. O escritor seria mais um artista a sofrer com este tipo de exigência estética, como já acontece com atores ou cantores.

A segunda hipótese é a de que a literatura produzida pelo jovem tenha um frescor ou uma contemporaneidade que a destaquem da mesmice do mercado, ou da tradição que precisa urgentemente ser renovada. Neste último caso, de qualquer forma, ou acredita-se numa espécie de genialidade inexplicável, evocando-se os grandes autores que escreveram cedo grandes livros, ou imagina-se que a "novidade do novo" será suficiente, e compensará alguma ingenuidade e falta de maturidade (conhecimentos, vivências, leituras) inevitável em um escritor de pouca idade.

A ironia é que a confirmação do talento de autores festejados pelo atributo da juventude virá somente com o tempo. Ou, quem sabe, acharemos natural "consumir" autores jovens para descartá-los depois do segundo ou terceiro livro, em nossa busca por respostas do mundo contemporâneo aos dilemas da arte, e especialmente da literatura.

***

Longe do universo da cultura ou dos esportes, a valorização excessiva da juventude parece afetar hoje uma penca de profissões. Com exceção de poucas e sólidas carreiras, como a medicina ou a advocacia, em várias áreas as qualidades relacionadas à experiência são desprezadas, enquanto aumentam de status aquela evocadas pela condição de jovem dos novos profissionais.

Em coluna recente, a jornalista Cora Rónai fez um mea culpa por ter caído na armadilha, depois de receber o puxão de um leitor. Ela havia se referido, em texto anterior, a "duas arquitetas jovens, simpáticas e competentes". Marcos Josuá, arquiteto de 63 anos, deu uma bronca exemplar, reproduzida pela colunista:

"Sempre me parece que ser jovem é um atributo a mais para a profissão, quando deveria ser ao contrário, pois quanto mais velho, mais sábio e experiente se é. Além disso, todo arquiteto é obrigado a ser 'jovem', mesmo que tenha 90 anos, pois tem que estar antenado com os novos materiais que surgem e com as tendências da arquitetura, além de ter a mente aberta a qualquer novidade. Isto parte até mesmo dos próprios profissionais da área, que nas Casas Cor da vida insistem em denominar os ambientes que criam como 'o quarto do jovem casal' ou 'o apartamento do jovem executivo' e por aí vai, como se as pessoas de mais idade não existissem e não precisassem de quartos ou de apartamentos."

Marta Barcellos é colunista do Digestivo Cultural.
Leia mais artigos da autora em Digestivo Cultural

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