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16 de ago de 2016

CARLOS KOPES E SEUS MÍNIMOS RELATOS


Carlos Kopes, diferente de muitos autores, busca a discrição, um certo isolamento estratégico e até mesmo publica parcimoniosamente neste momento em que a autopublicação é uma realidade no mercado editorial. Mas, engana-se quem pensa que sua produção não esteja acontecendo, no seu próprio ritmo, gestada com cautela e sem a pressa dos que mal alinhavam um pequeno texto e se apressam imediatamente a publicá-lo. Num tempo dominado pelos relampejos dos flashs, pelos cliques, pela avalanche de redes sociais que têm o poder de dar visibilidade instantânea a qualquer um que consiga chamar atenção, Kopes se mantém ausente desse torvelinho e dedicado aos seus afazeres na magistratura e aos encantamentos que a leitura seletiva é capaz de proporcionar a quem se dispõe a desvendar as boas páginas da literatura universal.

É com imenso prazer que apresentamos alguns textos do autor para apreciação dos nossos leitores. 
(Paulo Tarso Barros)


Kopes e sua esposa a prof. Tânia Ataíde




RELATOS MÍNIMOS



CRÔNICA DA VIDA E DOS INFORTÚNIOS DE ELIZABETH FLORES, A DONA LILI, REGISTRADA POR UM OBSERVADOR ATENTO E IMPARCIAL

Tudo que ela queria era fazer cessar o sofrimento, mergulhar no Olvido. Esquecer-se de si e do fardo que a vida lhe impusera. E por isso bebia, bebia.
Quando Olvido Amâncio de Jesus veio bater à porta, finalmente divorciado, era tarde: o fígado dela já havia sido corroído pela cirrose.

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Atravessando a rua naquela manhã luminosa de setembro, Domenicus Weistenhoff ainda não exibia os sintomas da doença que iria matá-lo poucos meses depois.
Isso, porém, deixaria de ter qualquer importância em alguns minutos. Porque a chuva de meteoros que passava naquele momento nas proximidades de Proteus e Nereida era massiva o bastante para deslocar infinitesimalmente Plutão, então cruzando a órbita de Netuno; e daí que aquele sedã que deveria ter dobrado à direita na esquina anterior agora seguia em alta velocidade direto para a faixa de pedestres.


Kopes, Paulo Tarso e Herbert Emanuel

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Insuficiência peniana. Depois de um longo e arrastado processo, com perícias e oitiva de especialistas, fora esse o cruel veredito. E ele, agora, deveria submeter-se a um período probatório de um ano, no qual estava obrigado a aumentar o comprimento e o diâmetro do órgão, sob pena de ver dissolvido seu casamento.
Seis meses haviam se passado, entre dores excruciantes, causadas ora pelos instrumentos introduzidos para aumentar o volume dos corpos cavernosos, ora pelos pesos que, amarrados ao pênis, deveriam alongá-lo. Muitas vezes havia pensado em desistir. Mas agora ele estava em Málaga.
A Universidade de Málaga noticiara o exitoso implante do primeiro pênis biônico, um construto feito com partes mecânicas e tecido cultivado em laboratório, ereto ao toque de um botão. E agora passaria a fazer cirurgias em outras pessoas que, como o primeiro paciente, haviam perdido por completo o órgão.
Ali no quarto de hotel estava tudo que ele precisava. O telefone da emergência médica local; o anestésico; o torniquete; a faca afiada. Executadas as etapas com precisão, foi perdendo a consciência com um sorriso, sonhando com um potente despertar, embalado pela voz cada vez mais longínqua na TV...
Notícia urgente. A Universidade de Málaga informou serem absolutamente inverídicas as notícias acerca da criação de um pênis biônico O porta-voz da instituição criticou veementemente as pessoas que teriam divulgado esses boatos fantasiosos [...]


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Kopes, à esquerda da desembargadora Sulei Pini e seus colegas
do Tribunal de Justiça do Amapá


O vento sopra em meu rosto e desalinha meus cabelos; eu abro os braços e sou por ele abraçado, como se flutuasse. Um brilho no canto do olho chama minha atenção e levanto um pouco a cabeça, a tempo de perceber os primeiros raios do sol, que vem surgindo à esquerda entre os prédios e lentamente tingindo tudo de dourado. A sensação de leveza e liberdade é indescritível.
Diante de uma beleza assim um homem se sente pleno, preciso admitir. Sim, senhor, todo mundo deveria experimentar essa sensação um dia, contemplar essa visão tendo o corpo simultaneamente refrescado pelo vento e aquecido pelo sol nascente. Sinto que posso deixar tudo de lado, que nenhum problema é insolúvel ou insuportável. Quero voltar para casa e recomeçar já; mas já as janelas passam por mim com velocidade crescente, e já a calçada lá embaixo se aproxima e posso distinguir suas rachaduras, será aquilo uma joani...



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Essa é uma acusação absurda, disse a madre superiora. E realmente parecia. Mas fato era que, tendo chegado ao convento a septuagésima noviça, naquela noite, a da sétima lua cheia do perigeu, uivos puderam ser ouvidos à distância no deserto circundante, onde nunca se tivera notícia de lobos; e no dia seguinte, murmurava-se, alguns catres haviam amanhecido intocados e outros com marcas de dois corpos, e aquele ambiente para sempre austero fora brevemente tomado por sorrisos.


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Kopes e o juiz Carlos Fernando no dia do lançamento do seu livro
Direitos para os Animais



No fim da tarde, quem desce o morro sempre avista Belarmino. Ao término da ladeira, logo após a curva, lá está ele, o corpo apoiado na mesma arvorezinha, o olhar fixo na estrada poeirenta.
Os habitantes das redondezas já se acostumaram àquela presença, quase parte da paisagem. Já os desavisados espantam-se ao ver de repente aquela figura magra ali parada, o facão atado a um lado da cintura, o embornal do outro. Alguns desses, por um momento, supõem ver nos olhos aparentemente vidrados uma sombra de loucura; mas a sensação, se surge, logo se desfaz, porque no rosto da estranha figura aparece um sorriso tímido e doce ao qual até os mais empedernidos acharão difícil deixar de corresponder.  
Mesmo para os moradores mais antigos daquele confim não há muito a dizer sobre Belarmino. Os pais morreram cedo; não tem amigos ou parentes conhecidos; e não há vizinhos próximos ao seu pequeno sítio. Sabe-se apenas que pesca, trabalha em sua roça de mandioca, e depois da faina diária caminha até aquele ponto da estrada, fazendo o caminho de volta quando escurece.
Ninguém sabe o que se passa na cabeça do matuto, dia após dia parado ali, alheado do mundo, vendo a vida passar naquele ponto da estrada. Alguns dizem que ele tem miolo mole;  outros supõem que talvez ele apenas queira distrair-se da solidão e não conheça outra maneira (e parte destes últimos concede que talvez ele realmente tenha miolo mole). De qualquer modo, ele deixou de ser novidade há muito tempo, porque nenhuma novidade sai daquele proceder contido e invariável, naquele trecho da estrada.
Belarmino, porém, sabe muito bem o que faz ali. Ele espera paciente, contrito, absorto, conforme lhe foi ordenado.
Um dia virá alguém pelo caminho. A Voz o apontará. A Voz lhe disse o que fazer. Nesse dia, quando ele passar por ali, Belarmino sacará seu facão e o retalhará em pedacinhos.
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INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR


 

Luiz Carlos Kopes Brandão nasceu em Campo Grande-MS, e vive no Amapá desde 1989. É Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado do Amapá. Lançou em junho de 2016 o livro Direitos para os Animais: Rompendo Paradigmas, pela Universidade Federal do Amapá, fruto de sua dissertação no Mestrado em Direito Ambiental e Políticas Públicas. Seu poema Cavalo-Marinho foi publicado na Antologia do I Festival Amapaense de Poesia (Tarso Editora/Valcan Editora, 2001); e alguns contos e uma crônica figuram nas antologias Contos do Desejo (Editora AMB, 2012), Tudo na Mais Perfeita Ordem (Editora Kelps, 2013) e Lembranças (Editora Kelps, 2013), organizadas pela Associação dos Magistrados do Brasil - AMB.




18 de jul de 2016

SÉRIE NOVOS POETAS DO AMAPÁ 6 -ELISA MARTA NERY FREIRE


Marta Freire é natural de Afuá-PA, nasceu no dia 24 de fevereiro de 1973. Morou e estudou em Belém-PA, onde trabalhou como Assessora Parlamentar, mas desde 1994 é radicada no Amapá, quando foi aprovada no Concurso Público de Agente de Polícia.
Graduou-se em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, na Faculdade Seama, e atuou na área pelo período de 6 anos aproximadamente.
Marta Freire

Posteriormente, também graduou-se em Direito, na Faculdade Ceap.
Desenvolveu vários estágios dentro do órgão Ministério Público do Estado do Amapá, dentre alguns, na Assessoria de Comunicação, na PICC(Promotoria de Investigação Cível e Criminal), na Execução Penal  e no Tribunal do Júri.
Desenvolveu trabalho monográfico experimental, lançando a revista “Mundo Amazônico”.

Ela começou a escrever poesias aos 12 anos de idade e nunca mais parou, pois é uma de suas maiores paixões. Seus poemas possuem variadas temáticas, no entanto, sua linguagem literária sempre foi mais voltada à poesia erótica.
Em 2008, chegou a apresentar à Associação Amapaense de Escritores o livro “A Magia de Amar”, pronto para ser lançado, mas por ocasião do destino, desistiu de tal publicação. Porém, agora sente-se em momento oportuno e pretende fazer alguns lançamentos brevemente.
Faz parte da Associação Amapaenses de Escritores-Apes.
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Contatos com a autora:

Facebook:

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Nota:
Esta série vai prosseguir até que possamos publicar e registrar, em intervalos de 15 em 15 dias (mais ou menos!), neste blog, o maior número possível de novos autores. Aguarde para breve mais um novo poeta!!!!

 
Marta Freire


Tantas Faces, Por Tantas Fazes



O passado passou,
O presente chegou,
Despida de ontem,
Vestida pra hoje.


E agora, é dele que vou cuidar,
É a ele que vou me dedicar,
É pra ele que vou me entregar:
Presente!


Vou me transportar pra sua mente,
Me entrelaçar em seu beijo,
Delirante, saliente, ardente,
Tudo muito prepotente.


                                             Vou adentrar em seus poros,
Bailar em seus olhos.
Sua alma, seus peitos,
Seus feitos...Tão perfeitos.


Vou me embriagar em seu suor,
Me envenenar sem dó,
Com suas carícias,
Loucuras, manias,
Molhado de malícias.


Vou-me envolver em seu lúdico,
Em seus desejos,
Suas lacunas,
Vontades...
Pescoço, língua, vaidade,
Nada de verdade.


Vou te arrancar suspiros,
Me realizar em seus risos,
Gemidos, sussurros, gritos,
Desespero, ruídos feridos.


Vou me deleitar no enigmático
Te fazer o meu presente futuro,
E tudo mais puro,
Ou quem sabe o meu futuro
Presente todo indecente,
Depende da minha
E de sua mente.

Quem sabe assim,
Podemos viver,
Desse jeito,
Pra sempre,
Envolvente, eternamente,
Somente, mente, faces,
Oníricos, cínicos corpos, fazes,
Enlaces...

Tudo brilhante,
Vibrante,
Volúpia, contraste,
Perto, dentro,
Mas não se afaste,
Meu presente,
Minha face,
Meu enlace.
 
Marta Freire

Lua Nua


A noite escura,
Eu e a lua.
Ela toda nua,
Pura e crua.

Meus olhos,
Na mente, suaves sonhos,
No rosto, choros risonhos,
Na alma, embalos medonhos.

Foram tantos anos,
Mil planos,
Lúcidos e insanos.

Desvairados brilhos,
Entrelaçados em incógnitos trilhos,
Caminhos, meus, teus filhos.

A te olhar,
A te comtemplar,
A te amar,
A sofrer,
A chorar.

E esta devassidão,
Esta escuridão,
Em lua cheia de iluminação,
Por que tanta solidão?

Choro antecipado,
Coração apertado,
Grito em lágrimas afogado,
Espírito sacramentado.

Oh Lua,
Por que vens assim tão nada minha,
Toda sua?
Isso não é justo a dor é minha,
E a alegria é sua...Só sua rainha.

Fique ai no seu espaço,
Aliás, você deve ter tantos espaços.

Que eu estou aqui em pedaços,
Em meio a muitos estilhaços,
Porque a minha alma perdeu os traços,
E o meu corpo ficou sem os seus braços.

Portanto lua, não mais posso dar-te abraços,
Restaram-me apenas os frágeis soluços,
Porque perdemos os mais lindos laços.



Voz da Alma


Voz que caminha comigo,
E calada soa aos meus ouvidos,
Ecos de murmúrios e gemidos.

Voz de gosto,
Gozo de prazer,
Sem eu pedir,
Com o meu querer.

Voz que fala à distância,
Não mede elegância,
Me deixa sem saída, em difícil circunstância.

Voz que me joga em teus beijos,
Louca de desejos,
Entregue aos teus manejos.

Voz que fala o que eu quero,
Faz sentir, o que eu não quero,
Me coloca dentro do que eu quero e não espero.

Voz que me conduz,
Que me confunde,
Que me induz,
Em direção, não sei se; ao escuro ou à luz.


Anjo Sem Asas


Sem medo da noite,
Sem receio do escuro.

Imposição? Não! Escolha imputável!
Agora só resta brilhar...
Se for estrela; até no obscuro,
Te farei impuro,
E ainda assim volto e te procuro.

Se for fogo; até durante o dia,
Te envolverei na minha melodia,
Mas não voltarei pra contigo fazer moradia.

No entanto, se virar brasas,
É melhor você criar asas.

Ou te fixarei num sonho inseguro,
E jamais meu Anjo, voltarás a ser puro,
Ou então, escolha a insólita solidão do seguro!



Musa do Samba


Brinque com ela,
Faça ela sorrir,
Falar,
Desabafar.

Ela foi em busca da noite,
Você a levou pra ver a lua,
Presença toda sua.

Você apresentou-a ao mundo diferente,
Brilhos, glamour, sereia e serpente,
Ao mesmo tempo, na mesma vertente.

Mesclagem de mítico e real,
De fantasias e sonhos,
De culturas e esculturas.

Tudo muito colorido,
Da cor deste paraíso,
Que está sendo esculpido.

Noite de viajantes,
De brincantes,
De embaixada,
Entre um carro e outro,
Uma cantada,
Bem encaixada.

Na avenida
No barracão,
No cassino,
Sem casta,
Na corda bamba,
Moça, você está em meio aos artistas do samba.

Faça ela sorrir outra vez,
Ela é só uma ilusão,
Que faz alusão ao coração.



Homem de Farda


Um Deus grego, um príncipe,
Um belicoso, um herói cheio de pertinácia,
Tácito, de pouca falácia.

Um guerreiro em seu trono,
Repleto de encantamento,
Todo seu dono, um patrono.

Uma tropa inteira e só um fascínio,
Uma atração muito viva, arrebatamento,
Total domínio.

Olhar tentador,
Talismã atraente,
Guerrilheiro sedutor,
Um perfeito voador.

Sortilégio de boca,
Física sedução,
Deslumbrante tentação.

De costume ingênuo, inocente,
Instigou uma invasão insana,
Insólita e recente.

Em seu voo tão alto,
Me prometeu as estrelas,
No deleite iniciático em um profundo salto,
Me presenteou às galáxias.

Sem limite,
Marco final,
De um início de uma viagem real.

Sem qualquer receio,
Eu me deixei adentrar naquele meio,
Um comandante erudito, sábio, societário,
Que têm sólio,
E lentamente me levou ao seu mundo nada ilusório.
 
Marta Freire


Anjo de Verdade


Quando a alma de um anjo sangra,
O espírito padece, adoece.

Bem aventurados os brandos,
Sem violência,
E pura inocência.

Quando a asa de um anjo é quebrada,
A matéria é violentada,
Destinada,
Crucificada.

Embora ferido,
Agredido,
Um anjo é pacífico,
Calmo, brando,
E continua amando.

Um anjo é abençoado,
Doce e moderado.

Nele só habitam virtudes,
Mansuetudes.

Num anjo a afabilidade,
É sintoma natural, real e leal.

Ele é revestido de paciência,
E no seu interior, de benevolência.

Um anjo é feito de caridade,
De humildade,
De fraternidade.

Num anjo,
Não há lugar para a maldade,
Ele é feito de pura bondade;
Quando é um anjo de verdade.


Pacto


Um pacto tácito,
Vozes politeístas,
Você e eu novamente,
No corpo,
Na alma,
Na mente.

Insólitos,
Iniciáticos,
Términos,
Térmicos.

Anos de inocência,
De ingenuidade,
De malevolência,
De possessividade,
Sem limite,
Sem idade.

Pensas em qual possibilidade,
Meu Anjo de muita idade?

Mas mantenho a minha polidez,
Contenho a minha timidez,
E continuarei cortês,
Pois já visualize a minha vez.

Porquanto, vá se agarrando,
Em meu pranto,
Se envolvendo em meu manto,
Se apoiando em peito santo.

Já que o seu deleite,
Só ocorre em meu íntimo tanto.


Furacão em Chamas


De dentro do íntimo,
Liberto um furioso furação em chamas,
Gemidos de arrebatadora paixão,
Total êxtase,
Deslumbrante de ilusão.

Mas atiro à multidão.

Que agora venha o fogo,
Isolado da paixão.

Porque o fogo vai queimar,
E a paixão vai terminar de apagar,
E nunca mais essa chama vai amar.

Marta Freire

Voo Perigoso


Sou solta, suave,
No teu intimo sou solta,
Na tua boca sou suave.

Voo livre,
Crio asas,
Sem receio,
Sem armas.

Nesse voo atrevido,
Te invado,
Te inibo,
Te embriago,
Te decifro,
Te decido.

Vem voar comigo,
Nesse voo violento,
Esse amor de perigo,
Raso, profundo,
Cheio de elemento.

Vem me prende contigo,
Vou te prendo comigo.
Te desafio;
Um amor pra casar,
Ou um amor vadio.



Incógnita


Por que mesmo em meio a tanta dor,
Você sempre dá um jeito de me fazer sorrir de amor?

Por que com desdenho, me empurra para o fundo do abismo,
E depois entre furtos, malícias e surtos de generosidade,
Me estende a mão, com vontade louca de despertar a paixão?

Me pega em teus braços e com brilho repleto nos olhos,
Me arrebata sutil e ao mesmo tempo violentamente,
Para o seu mundo imperioso, impenetrável, amável...Porém, instável.

Por que traz de volta o amor em mim,
Sempre quando me dou à certeza, de que chegou ao fim?

Queres provar o que pra mim,
Que enquanto existires perto, não saberei o que será de mim?


Silenciosa Voz

E este silêncio,
Que dentro de mim grita,
Ensurdecendo o meu vício,
Riso malício.

A minha voz ausente,
Que calada de dor cessou,
Nunca mais se fez presente.

O meu minucioso olhar,
Que mesmo vedado,
No momento exato,
Saberá o que executar.

E somente com ele,
Tão somente com ele...
...Te devorar,
Te envenenar,
De tanto amar,
Até o total invólucro,
Se eternizar.


Vícios

Quando uma pele se vicia em outra pele,
Quando um espírito se apaixona por outro espírito,
Quando uma volúpia impetuosa de um corpo seduz outro corpo,
Quando as químicas se misturam,
Quando as almas se entrelaçam
Não há nada que os separe,
Só lanças que dançam.


Fênix


Amanhã será o seu dia,
Mas antes; hoje, foi o meu!
Derrubei uma muralha,
Fiz um canalha.

Renasci das cinzas,
Em meio a tantas gingas ranzinzas,
Arranquei risos, gritos,
Matei muitos mitos.

Brinquei com anjos, demônios,
Gregos e troianos.
Fui eu, fui ela, fui ele, fui você!...
...Eu fiz e fui feliz.

 
Marta Freire

Encontro


Essa foi a nossa visão,
Lua linda, brilhante ilusão.
Teus olhos,
Meus sonhos,
Teus lábios risonhos.

Antes, a parte,
Uma arte.

Os corpos,
Sem focos,
Loucos de gostos,
Envoltos e revoltos.

E no meio da noite,
Tantos quantos...
Olhares, de ares...
Toques, de choques.

Peles,
Bocas,
Nossas,
Vossas.

Um só mundo,
Duas vidas,
Mil desejos,
Milhões de coisas vividas proibidas.

E lá se foi você,
E aqui estou eu.

E aquele beijo ficou,
Você me deu.
E se formou,
Um universo secreto entre você e eu.

Porque você carregou o meu,
E eu fiquei com o teu,
Lamento, mas a solidão nos perdeu.

 * * *