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25 de jun de 2007

Artigo de Pedro Paulo Matos Ribeiro

“Vc é mto telequitoal”
Pepê Mattos

pepe_mattos@yahoo.com.br


O título do texto escrito em internetês dá uma idéia do que me proponho a comentar nas próximas linhas.
Eu poderia muito bem continuar nessa linguagem perfeitamente inteligível para toda a galáxia internética (aquela que mal liga o computador é teletransportada diretamente para o planeta MSN ou para o sistema cibernético Orkut) e até mesmo para qualquer um que já tenha se aventurado a entrar num desses espaços virtuais de nosso tempo.
Estava eu conectado na Internet e meu MSN abriu tão logo eu acessei a rede mundial, a tal www. Pois bem, a princípio e normalmente quando qualquer ser mortal e que tenha o tal programa instalado o acesse, uma janelinha acusa que alguém está disponível para “tc”, digo, conversar. Primeiramente uma amiga que se encontra noutro país e depois alguém que inicialmente não identifiquei, mas que logo reconheci devido ao seu nick.
Confesso que já tinha deletado o nome dela outras vezes de minha lista de endereço, mas como acredito que ela gosta de papear sem maiores conseqüências, achou por bem não me excluir de sua lista. E todas as vezes que entra para conversar pergunta quem e como sou, essas coisas que se perguntam numa situação dessas.
Tratava-se de uma menina de 15 anos e que mora em São Paulo e por
motivos de segurança omitirei seu nome verdadeiro (e conseqüentemente seu endereço eletrônico).
Admito que quando acesso a internet não sou muito de entrar no MSN. Aliás, meu email do hotmail.com eu quase nem visito e haja o tempo todo o ícone do dito cujo me lembrar que a cada acesso o número de emails não lidos vai aumentando.
Então, neste dia estava conversando com uma amiga que está na Alemanha e que foi minha colega de trabalho até ela conhecer seu atual marido e se mandar de mala e cuia pro Velho Mundo.
Conversa vai, conversa vem com minha amiga na Alemanha, Maninha (a tal menina, nome ou nick fictícios), numa hora, depois que eu comentei sobre a necessidade de se ler para se obter um vocabulário melhor, digitou:
- Hum, vc é mto telequitoal...
Ora, não fosse a minha formação acadêmica ter sido um tanto fortemente relacionada à área da Gramática, ainda assim a grafia da frase supra me deixaria inicialmente resignado, pois nesse universo virtual é necessário ser claro e objetivo no melhor estilo fast-food; porém, caso se comprovasse uma agressão ao nosso léxico, de forma consciente, aí a coisa já resvalaria para a estupefação (ou indignação), fosse quem fosse que estivesse no outro lado da linha – vá lá, em frente a outro monitor. Meu curso de Letras foi algo de extremamente positivo em minha vida, no qual me senti muito à vontade, já que literatura é uma das atividades a que me dedico e sempre me dediquei mesmo quando ainda não tinha condições sequer de comprar um livro. Imagine quando pude finalmente ter minha própria biblioteca...
Pois bem, voltando à conversa com Maninha fui logo dando risada (rars) e comentando seu jeito curioso de escrever o que eu achei ser “intelectual”.
- Legal seu jeito de escrever isso!.
- O q?.
- !!! Como o quê?.
- Pq? Tá errado?
- ...
Palavra como não sabia como redargüir a isso. Respirei fundo. Calma,
muita calma nessa hora.
- Maninha, por acaso, você não sabe que não se escreve assim... E que
o certo é intelectual?
- Desfarsa (sic)... Poser né (acho que era “Pois é, né?”)
Aí incorporei o professor que não fui - ou que não sou. Disse-lhe entre outras coisas que ela devia nas horas vagas ler mais para adquirir um vocabulário melhor, pois esse tipo de linguagem acaba tornando-se o normal e tomando força de regra, quando na verdade é exceção e restrito apenas ao espaço virtual. Bom, aí ela rapidamente desconversou e se despediu dizendo que tinha que sair e coisa e tal.
Sinceramente, espero que ela tenha me deletado de sua lista de endereços de uma vez por todas. Imagino que os pais dela enfrentem problemas que podem ter causas (e conseqüências) as mais diversas, sendo o principal, não terem tempo para a pobre coitada.
Agora batendo um pouco mais nessa tecla sinto que a ocorrência de fatos como esse tem se tornado comum principalmente para profissionais da educação em qualquer parte do planeta. A disponibilidade dessas ferramentas cada vez mais está chegando a quase todas as classes e grupos de pessoas. O maior problema para o nosso tempo é encontrar saídas para uma saudável convivência entre nossos rebentos e essas parafernálias eletrônicas. Se você for numa lan house vai verificar que pelo menos 90% dos computadores estão ligados no Orkut e MSN, mas a maioria mesmo vai estar plugada nos jogos on line.
E aqui mora o perigo, pois a garotada gosta mesmo é dos mais sangrentos (GTA, Counter Strike), em detrimento dos de estratégia ou de corridas de carro e simuladores de vôo. Em suma, o tempo, mal administrado, é todo preenchido por essas novas excrescências de nosso tempo.
Como fazer com que essa geração leia mais? Fica difícil argumentar principalmente quando você não dá exemplos. Bom, cada caso é um caso, mas no que consigo ver no âmbito dos relacionamentos familiares é que estamos formando uma geração de não-leitores ou, no mínimo, uma geração de anti-leitores. Provavelmente, ainda vamos encontrar outra Maninha a escrever aberrações como essa do título acima.
Palavra que eu queria que isso fosse mais uma daquelas piadas tiradas do resultado das provas do ENEM.
Infelizmente, é a triste realidade.

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