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21 de jun de 2016

CONTOS VENCEDORES DO 2º CONCURSO LITERÁRIO DO PENA & PERGAMINHO

Publicamos os 3 contos selecionados, em março de 2016, através do 2º Concurso Literário do grupo poético Pena & Pergaminho. Os autores receberam como premiações troféus, certificado, kit Pena, livros, brindes e cortesias.

Visando sempre registrar e apoiar a produção literária dos nossos escritores, e com a devida autorização dos mesmos, disponibilizamos os textos premiados para que sejam cada mais mais acessíveis aos leitores, principalmente alunos e professores que pesquisam sobre a nossa produção literária - nem sempre tão fácil de ser encontrada em livros impressos. Sempre lembramos aos nossos leitores que na Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda há um acervo de autores locais que podem ser pesquisados.
(Paulo Tarso Barros)


Foram estes os 3 contos selecionados:

1° Lugar - Marvin Cross, com o conto "O Velho Sábio"
2° Lugar - Caio Freitas, com o conto "O Fantasmagórico Fantasma Górico"

3° Lugar - Annie Carvalho, com o conto "Civilização Mayuãni"


Caio Freitas, Marvin Cross e Annie Carvalho (Arquivo P&P)


O VELHO SÁBIO

Há um velho que vive no topo de uma colina muito, muito alta. Seu lar é uma caverna fétida que, volta e meia, está empesteada de abutres que pairam por ali.
No entanto, o povo da tribo Ashkar busca os conselhos do velho há quase um século. É uma tradição e uma honra. Há cerca de três anos, os Ashkar venceram a guerra dos setenta e nove dias contra a tribo rival, os Nazraul, que costumavam viver do outro lado do rio, e que agora estão extintos. Tudo isso graças às orientações do velho sábio, que dera as devidas coordenadas estratégicas para todos os momentos e batalhas na peleja contra os Nazraul.
Em outra ocasião, durante o último verão, quando uma grave seca parecia se alastrar pela terra sagrada dos Ashkar, o velho sábio lhes orientou que acendessem uma fogueira bem alta, desenhassem um círculo com sangue de animais em volta dela, e dançassem para a deusa Rhayan durante oito dias e oito noites, alternando-se em grupos, para que os ritos não se tornassem cansativos para uma pequena porção de pessoas. Ao fim do ritual, houve um período chuvoso como jamais existira na história daquela civilização, e a colheita fora farta e por um ano os Ashkar não precisaram plantar coisa alguma.
O velho sábio, cuja identidade e história ninguém sabia, nem mesmo os membros mais antigos da tribo, passou a ser tomado então como sacerdote, estrategista militar, conselheiro amoroso, conciliador para conflitos, curandeiro e qualquer outro título que pudesse remeter a algum serviço essencial para a vida humana. E assim a prosperidade dos Ashkar ia se perpetuando.
E o mais extraordinário de tudo: o velho ajudara a todos sem jamais abrir a boca para pronunciar uma palavra sequer. Relatos de quem já escalou a colina revelaram que, sempre que consultado para algum fim, o velho sábio sempre se mostrara impassível, plácido como uma aranha que tece pacientemente sua enorme teia, silenciosa e sagaz. Esses mesmos relatos informaram que as respostas do velho sábio vinham horas mais tarde, em forma de sonhos ou mensagens que surgiam como claros sinais na natureza ou até mesmo no comportamento dos animais. Ou, de forma ainda mais óbvia, através de inscrições nas paredes das casas ou na areia da praia. Havia uma versatilidade admirável nas ações do velho sábio até nisso.
O único relato que deverá permanecer em silêncio, provavelmente, é o do pequeno Yamit. Filho do capitão do exército que liquidou com os Nazraul, o pequeno valente mal devia ter dez anos quando escalou sozinho a colina. Ávido por uma resposta sobre seu amor impossível por uma garota que só encontrava em seus sonhos, Yamit estava disposto a encarar a orientação certeira do velho sábio, mesmo que tudo que ele tivesse fosse uma bronca por sua audácia em fazer a perigosa escalada por conta própria. Entretanto, Yamit era otimista e contava com a hipótese de que o velho lhe desse os parabéns por tão arriscada empreitada e, quem sabe, até lhe fornecesse as pistas necessárias para encontrar a doce menina.
Mas a frustração de Yamit, a qual ele levará para sempre consigo e da qual jamais se esquecerá, por mais que tente, foi quando, depois de reverências e apresentações, apercebera-se de algo muito perturbador. A ponto de desmaiar com tanto fedor que permeava a caverna, o menino culpou-se gravemente por ter se esquecido de levar algo para proteger as narinas, contrariando um dos detalhes cruciais das narrativas que ouvira sobre as visitas ao velho. No entanto, num ato de extrema ousadia e jamais recomendado por ninguém, o garoto aproximou-se do velho, sentado como uma estátua sobre uma grande pedra, os olhos serenos fitando uma parede à sua frente. O mau cheiro ficou ainda pior.
E foi então que Yamit descobriu que sua petição jamais seria atendida, pois, a julgar pela falta de respiração do velho sábio, além de sua face quase inteiramente carcomida, aquele corpo imóvel devia estar jazendo sem vida há várias décadas.
Yamit não teve coragem de puxar o pano que cobria o corpo do velho. Havia alguns buracos no lençol e, certamente, seriam das bicadas dos abutres tentando arrancar a carne morta ao longo dos tempos.
Num só ímpeto, o garoto correu para fora da caverna, horrorizado, procurando fazer a descida da forma mais veloz que pudera.

Daquela noite em diante, a menina desaparecera dos sonhos de Yamit.

(Marvin Cross) 


Saiba mais sobre a vida e obra do autor: 

Marvin Cross (Arquivo do Facebook)

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O FANTASMAGÓRICO FANTASMA GÓRICO


Caio Freitas (Arquivo Facebook)


Havia 3 meses que eu não visitava meu primo, mas uma certa noite recebi uma ligação estranha. Era um número estranho, uma voz estranha falou, com ruídos estranhos ao fundo, se identificando como Górico, meu primo, me pedindo para ir à Macapá visita-lo.
Achei estranho o pedido, mas já que estava de férias, resolvi ir. Quando finalmente cheguei em Macapá, depois de 45 minutos, já que morava em Santana, Górico me recebeu de braços abertos em sua casa, que estava estranhamente bem arrumada, apesar de seu histórico de pessoa preguiçosa e também pelo fato de que ele morava sozinho, no entanto a casa estava estranhamente mal cheirosa. Ele estava com uma roupa branca, sua pele estava pálida. Parecia um médico que acabara de se maquiar para ir a uma festa. No entanto, pude notar sua inquietação, que assim que me acomodou em um dos cômodos da casa, me pediu para dar uma olhada em um conto que ele estava terminando de escrever, sobre fantasmas ou algo assim, cujo título era infame. Havia uma introdução apresentando os dois personagens centrais, sendo que um deles estava escrevendo um conto sobre algo sobrenatural, pedia que seu companheiro lesse o dito cujo, do qual o título era algum tipo de cacofonia, se não falhava a memória do outro. Depois da longa viagem até Macapá, a fome bateu, mas foi embora assim que abri a geladeira, que estava vazia, isto é, de algo comível. Tinha teias de aranha, alguns ratos fazendo residência e várias baratas, das quais davam o delicioso aroma de podridão. Nem ligada na tomada ela estava. Na verdade, nada na casa estava ligado em tomada alguma. Aí você me pergunta: “mas como Górico estava escrevendo o conto?”, e eu te respondo: Ele estava usando lápis e papel. Estranho, não? Pois foi isso que vi ao chegar na sala. Górico havia pegado seu caderninho e estava tentando terminar seu conto inacabado, e parecia empolgado. Pude perceber, porém, que suas feições estavam variando entre algo alegre e algo macabro.
Mas a que mais me perturbou foi quando alguém bateu na porta e o medo estampou no seu rosto a expressão de desespero. Aproveitei para ver o que ele tinha escrito, quando se levantou. Após aquilo que eu tinha lido antes, o trecho seguinte mencionava algo sobre uma pessoa vestida de preto bater na porta da casa de um dos personagens, fazendo alguma cobrança, mas o dono da casa dera uma desculpa esfarrapada e garantiu que na próxima visita o contrato seria encerrado, com a devida oferenda exigida. Imediatamente me virei e Górico estava atrás de mim com olhos julgadores. Olhei pela janela e vi a pessoa na qual batera na porta momentos antes: cabelos pretos, blazer preto, sapatos pretos e ao se virar e olhar diretamente para mim... olhos completamente negros, como o fundo do oceano, e foi embora, me deixando paralisado, com um frio na barriga e vontade de ir ao banheiro fazer papel de rei. Ao sair da janela, notei que Górico estava pensativo, inquieto, agoniado, tentando finalizar seu conto. Já eram dez da noite e resolvi deitar, ouvi passos pela casa, as luzes piscavam sem parar. Fui na sala e lá estava Górico, em pé olhando para o nada. Fui falar com ele e quando ele se virou em minha direção, havia sangue escorrendo por sua boca, seu rosto estava extremamente pálido e em sua mão havia um pedaço de carne vermelha e então caí para trás e levantei da cama, com o susto do pesadelo. No dia seguinte, de manhã, já que não tinha comida em casa, decidi ir à padaria, que ficava na esquina. Górico estava no mesmo cantinho, colado numa cadeira e enterrado em seu conto, e ele estava com a mesma roupa branca, como se não tivesse ido dormir. Não me atrevi a fazer contato direto com ele, mas perguntei se ele gostaria de ir na padaria comer algo. Ele disse que havia acabado de voltar da padaria e que eu podia ir sem problemas. Tomei o café da manhã na padaria, e obviamente, perguntei a algum atendente se meu primo havia ido lá mais cedo. O descrevi com todos os detalhes possíveis, mas havia esquecido de falar seu nome, então lembrei que falar o nome da pessoa poderia ajudar também. Falei o nome dele e as luzes piscaram, e o atendente me olhou com cara feia e foi embora. No caminho de volta para a casa de Górico, vi que a mesma mulher da noite passada estava na porta, e Górico estava falando com ela, então resolvi entrar pela porta de trás da casa, e minha intuição mandou eu checar o que ele tinha escrito no conto. Li que o cobrador visitaria o anfitrião da casa e este entregaria o visitante, como a oferenda. Meu estômago congelou e quase coloquei para fora o pão com ovo que havia comido quando vi que os dois estavam na sala, mas não haviam me percebido. Tentei rasgar a folha, mas ela parecia ser feita de madeira, tentei furar com um lápis que estava na mesa, mas o mesmo se quebrou. Então cuspi e passei o dedão nas ultimas linhas. Os dois se entreolharam e vi que havia conseguido apagar boa parte do que estava escrito, até o momento em que o cobrador visitaria o anfitrião, então o mais rápido que consegui, peguei outro lápis e escrevi que o visitante descobriria o que estava acontecendo, e nesse momento fui levantado no ar pela mão da mulher de olhos negros, me agarrando pelo pescoço, e ela começou a falar. Disse que ela era uma serva do rei dos demônios e que há três dias havia ido na padaria em que Górico trabalhava como padeiro, pois este ao fazer os pães sempre dizia a mesma frase, como brincadeira: “este é o pão que o diabo amassou”, e isso, ao se repetir milhares de vezes todos os dias, acabou invocando tal criatura demoníaca, que chegou um certo dia para reclamar com o padeiro dizendo “este aqui é o pão que o diabo amassou! Nem você comeria!”, então Górico
comeu o pão, para provar que não havia nada de errado, e aparentemente, naquele momento não havia mesmo, mas foi quando chegou em casa que começou a se sentir mal, tonto, e a mesma mulher da padaria apareceu em seu quarto e disse que o que ele havia comido era um pedaço do próprio coração, e que ela o manteve vivo para não morrer na frente dos outros, e foi então que Górico morreu no seu quarto. Sua alma saiu de seu corpo, e a mulher disse que ela só seria libertada se ele trouxesse mais uma alma, e para ajudar a recolher uma vítima, ela enfeitiçou um caderno que estava no quarto, com a magia de que o que fosse escrito ali, aconteceria. Depois que ela contou a história, Górico deu um empurrão na mulher demônio e esta me largou. A casa começou a tremer, as luzes piscando, e o medo dentro de mim tomando conta, senti que minha sanidade estava se esvaindo, mas Górico gritou para eu pegar o caderno e finalizar a história. Então me levantei e tentei escrever alguma coisa, mas ao ver que havia um par de asas nas costas da mulher, suas mãos haviam crescido e ficaram afiadas, e ela deu um golpe transversal no peitoral de Górico, que caiu paralisado. Meu corpo também parou. Ela veio em minha direção, me levantou, perfurou minhas mãos com seus dedos, me prendendo na parede.
A dor foi tão grande e intensa que nenhum outro pensamento poderia superar aquilo, mas consegui enxergar Górico se levantando aos poucos, pegando o caderno e escrevendo alguma coisa, no momento em que a criatura demoníaca disse que nossas almas eram dela. Percebi que os olhos de Górico haviam ficado furiosos e ele chegou perto de nós e deu um soco no abdome do demônio, que se dividiu ao meio. Caí de joelhos no chão, querendo desmaiar, mas antes vi Górico se esvaindo em cinzas também, me pedindo desculpas, se arrependendo. Tudo bem, ele só tinha oferecido minha alma para o capeta, não tinha problema, já que ele não a conseguiu. Uma parte do telhado caiu perto de mim, abrindo um buraco no chão, revelando algo que parecia um corpo, e com todas as minhas forças restantes, decidi sair da casa, que estava desmoronando. Ao chegar na rua, haviam várias pessoas olhando a casa caindo, e algumas me ajudaram, vendo que eu estava sangrando. Fumaça subiu dos escombros e em meio a ela uma forma grotesca apareceu, como a cabeça de um morcego gigante, dando um sorriso macabro... e desapareceu.
Desmaiei. Momentos depois acordei na casa de um dos vizinhos, a filha deles disse que
bem na entrada da casa havia encontrado algo que achava que pertencia a mim: era o maldito caderno enfeitiçado. Por curiosidade fui ler o que Górico havia escrito, e lá dizia que após a mulher demônio revelar toda a verdade, o anfitrião conseguiria salvar o visitante... E de alguma forma seria sacrificado, mas sua alma não seria libertada até que o visitante conseguisse outra alma para a criatura, pois a história não havia acabado, o demônio ainda estava nesse plano e a morte do visitante estava próxima. Me arrepiei por inteiro e vi que a menina que havia me entregado o caderno estava com os olhos completamente negros. Saí correndo da casa, mas antes escrevi que a próxima pessoa que tivesse em posse do caderno deveria finalizar a história sem sacrificar ninguém, mas a si mesma. E essa pessoa é você que está lendo agora. Boa sorte.

(Caio Freitas)

Caio Freitas nasceu em Manaus - AM, em 1993, cursa Letras - Unifap e está começando a escrever e a se envolver com os grupos literários de Macapá.


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                                                 Caio Freitas, Marvin Cross e Annie Carvalho (Arquivo P&P)



CIVILIZAÇÃO MAYUÃNI


Há séculos os índios Mayuãnis habitavam as terras do platô do Tumucumaque sob a proteção dos deuses do Escudo das Guianas.
Ergueram sua tribo em meio as cachoeiras e nascentes que despencavam das rochas afloradas nas entranhas gigantescas da floresta, suas folhas enormes debruçavam-se no leito tremulante do curso das correntes, por onde a água passava fazia desabrochar a vida.
A pedido dos deuses, os Mayuãnis construíram majestoso monumento de pedra para organizar as atividades de sua aldeia a partir dos astros, assim saberiam quando plantar, colher, parir seus filhos...  E tudo era matematicamente seguido. Eram um povo guerreiro e muito hostil, devido sua forma de instrução voltada para o combate, grafismo e infantaria das pedras.
Sua aparência era assombrosa. Tinham o hábito de mastigar uma planta abundante, a titica, que liberava uma resina que ao longo dos anos deixa seus dentes vermelhos.  Além da caça, costumavam alimentar-se de insetos principalmente de aranhas gigantes, seu diâmetro chegava a ser maior que uma mão humana, e muito abundantes naquelas matas, eram retiradas de suas tocas e espetadas na fogueira, um verdadeiro aperitivo aos grupos na floresta, tudo era aproveitado até suas pequenas unhas eram usadas para retirar as migalhas do dente e o veneno  servia para o importante ritual Eruã o qual acreditavam que em pequenas doses introduzidas de forma intracutânea através de cortes na pele permaneceriam imunes às pragas da floresta.
  As mulheres desde o nascimento era lhes dado o ofício do artesanato com traços e figuras zoomórficas, utilizado em toda vida tribal e especialmente em cerimônias à suas entidades e sepultamentos, algo muito valorizado na aldeia.  Não havia casamento desse modo, a mulher escolhia o bravo que achasse mais adequado. Homens que não fossem escolhidos por duas vezes seguidas eram rebaixados a servos no templo. 
Quando as guerreiras completavam quarenta anos auferiam status de sapiência plena, posição considerada de respeito na aldeia e passavam a ensinar as moças da nova geração. Uma cultura baseada nas tradições orientavam-se com os deuses em tudo, e esses sempre se mostraram autoritários e soberanos nas relações com seu povo. Os líderes Mayuãni chamavam os seus soldados de “caras pretas” o nome vem do hábito de pintar não apenas a cara, mas o corpo todo com a lama das poças naturais onde habitavam os espíritos dos antigos, junto com as árvores e pedras em decomposição. Não usavam veste alguma. E gostavam de adornos, sobretudo na cabeça, nos braços e no pescoço que simbolizavam respectivamente: sabedoria, força e equilíbrio. Isso não era um traço de vaidade apenas, mas respeito à Lei sagrada deles.
-Qualquer um que nasça defeituoso deve ser sacrificado! – Dizia a Lei. Dessa forma se estabelecia a sociedade deles, hierárquica e austera.
Dizendo estas palavras sobre o altar de granito bruto o cacique cortou a cabeça do recém-nascido.  A mãe nada podia fazer, seu corpo era enterrado fora da tribo, significando que ele não era digno de pertencer aquela terra.
Aos dez anos de idade os curumins eram recrutados para servir a vontade dos deuses no exercito dos guerreiros. Eram levados ao topo do platô do Tumucumaque, onde eram submetidos às mais dolorosas e pavorosas experiências, até se tornarem homens sem alma. Dessa forma não teriam medo de nada, o que os tornaria invencíveis.
Quando retornavam de lá, já com dezessete anos, nem pareciam seres humanos. Seus pés eram manchados de sangue e urucum e a escuridão pairava em seus olhos.
-“Jamais mantenham contatos com povos do mundo exterior e destruam o homem branco que se aproximar sem piedade...”. Bradavam os deuses de dentro do abismo selvagem enquanto eles marchavam de volta.
Certa manhã os sentinelas farejaram uma comitiva de homens vindo em direção à tribo e com extraordinária exatidão posicionaram-se para atacar.
Quando os primeiros “homens brancos” chegaram logo foram abatidos pelas zarabatanas dos invisíveis e astutos Mayuãnis, causando-lhes morte instantânea. Esses garimpeiros não podiam imaginar o terrível mal no qual estavam se metendo, afinal não deram ouvidos aos boatos que corriam na região de Monte alto do Amapá, contava-se que ali na mata havia uma poderosa e antiga civilização indígena ainda muito desconhecida. Eram selvagens e canibais. No ano de 1934, ignorando os avisos, um grupo de homens embrenhou-se em meio ao incógnito em busca de riquezas, principalmente pedras preciosas.
Eram trinta ao todo, no inicio da jornada pelo menos dez foram abatidos pelo veneno assoprado pelos índios. Fato que fez os garimpeiros apavorarem-se e, apesar de também estarem armados, sentiam que um mal muito mais perigoso havia por atrás daquela floresta sombria.
Em uma atitude desesperada, começaram a atirar para todos os lados sem um alvo definido, despertando ainda mais a fúria dos guerreiros que estando em sua tribo com suas mulheres e crianças, mesmo muito distantes e sem possibilidade de serem atingidos, foi suficiente para evocar a ira dos deuses canibais.
Os índios saíram de traz das folhas como demônios e com suas lâminas afiadas golpearam os pescoços dos homens de modo que eles não morressem de imediato. Os amarraram com cordas grossas feitas de cipó e os levaram ao templo das grandes pedras para acalmar a cólera das divindades. Os ofertaram em meio a cantos, danças e bebidas alucinantes em troca de força e proteção para sua aldeia, e os ídolos alegraram-se com o sacrifício e de dentro das sombras disseram:
- “Para deter um inimigo é preciso ver o que ele vê. Sentir o que ele sente. Falar o que ele fala. Comer e beber dele a qualidade que deseja adquirir para si...”.
Então os guerreiros montaram uma grande fogueira lançando os inimigos ao fogo depois lhes arrancaram as partes do corpo especificas que os interessava. Olhos, braços, tudo era devorado para que eles adquirissem as melhores características de seus oponentes e pudessem se tornar, desse modo, imbatíveis.
Regozijavam-se embalados por ladainhas lúgubres e exaltavam-se de conquistas altivas. Ostentavam nunca terem sentido o sabor da derrota. Um povo de exército forte, capaz de tudo; que nada temia, fechados, intactos em sua raça e cultura. Criados a base de fogo para que nada mais sentissem e as chamas faiscassem dentro de seus olhos e tudo que eles tocassem fosse destruído e consumido por eles.
Desse modo eles já estavam certos de sua capacidade soberbamente destrutiva, porém,
- “Muita luz ofusca os olhos...” bradou o deus de pedra, mas os guerreiros estavam contemplativos demais por suas presas para qualquer outra coisa.
Naquele momento fatídico o mais valente e astucioso garimpeiro mesmo gravemente ferido fingiu-se estar inconsciente, na esperança de salvar-se daquele pesadelo.
Era costume sempre dar ao líder o inimigo mais forte como prêmio de soberania, e por essa razão era o último a ser levado para a fogueira, momento em que o mestre encerraria o rito.
O homem foi levado pelos súditos, que o entregaram com jubilo ao ancião que mostrou os corroídos dentes em sinal que a presa era de seu agrado. Assim ele ergueu os braços de orgulho.
Estavam todos ali, às vésperas de um inesperado evento da natureza que havia sido pressagiado dias antes pelo pajé em forma de sonho.
- “Uma nuvem negra pairava no dia em que o forasteiro fez o tempo parar... Ele trazia água que destrói o fogo que há em nós, nos transforma em cinzas e pó...”.
Ignorando a si próprio decidiu não consultar os deuses sobre o terrível sonho, julgando ser ridicularizado dada a tradição de seus companheiros.
Ele não podia imaginar o grave engano e sua consequência. Tratava-se de um fenômeno das águas e naquele momento festivo começou a desabar sobre o platô pegando todos de surpresa e rapidamente começou a devastar a frondosa floresta tropical.
Nessa ocasião minuciosa o cordato cacique não esperando imprevistos, principalmente da natureza naquela época do ano, distraiu-se com aquele curioso evento e seus olhos relampejaram em direção ao céu, não intuíra que o inimigo fingido, percebendo a breve oportunidade, de súbito pegou de sua artesanal algibeira o machado consagrado e golpeou-o na cabeça atravessando-lhe o crânio com um único e fatal movimento. Tudo isso durou apenas um segundo.
Quando a primeira gota de sangue do líder tocou o gnaisse do templo o tempo parou... No segundo seguinte as enormes rochas megalíticas começaram a despencar em cima de todos.
O garimpeiro sangrando jogou-se dali embrenhando-se na mata correndo e correndo, no entanto as pedras não o atingiam, mesmo que passassem perto de sua cabeça. Porém aos Mayuãnis elas não erraram. Os deuses não toleraram aquela terrível falha dos guerreiros treinados por eles próprios para serem invioláveis. E imediatamente as divindades tomadas de furor lançaram lhes uma praga negra que extinguiria aquela civilização para sempre da face da terra.
Assim desapareceram os Mayuãnis.  Deixaram apenas vestígios no relato de um sobrevivente, que logo se apressou a contar sua terrível história aos moradores da região de Monte Alto sobre aquela sombria experiência.  Restaram também especulações a respeito de sua real existência na terra, e pouca comprovação científica afinal, não foram encontrados suas cerâmicas, ossos e tesouros. As ruinas de seus imponentes monumentos ainda estão soterradas em algum lugar das terras do Tumuc-Humac, nos dias de hoje Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque na floresta setentrional do Amapá.
(Annie Carvalho)

Biografia
Annie Carvalho é Geógrafa formada pela Universidade Federal do Amapá-UNIFAP. Ganhou o Prêmio Menção Honrosa- CNPq-UNIFAP-2009 pelo artigo: Dinâmicas Territoriais. É Guia de Turismo Regional cadastrada pelo Ministério do Turismo e Funcionária Pública.  Atualmente é membro da Associação poética e Cultural Pena e Pergaminho, Movimento Poesia na Boca da Noite e Confraria Tucuju. Ganhou o Prêmio Rosa Negra de Literatura 2014 -contos inéditos. Foi publicada pela revista Poética e Cultural Mallamargens-Curitiba-PR 2015, publicou também no Recanto das Letras. Apresenta o espetáculo poético chamado Liras e Mocambos, onde em meio a performances e músicas declama a poesia regional da Amazônia.
 
Annie Carvalho (Arquivo Facebook)




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