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17 de nov de 2013

AVENTURAS NO TEMPO EM TERRA TUCUJU


Publicamos um conto de Maria Ester selecionado no Concurso da Editora Rosa Negras:


Escritora Maria Ester


O ENCANTAMENTO DAS ÁGUAS

Sereias não são seres reais. Não na forma como concebemos a realidade. Na verdade, são entes fantásticos, absolutamente fantásticos, na plenitude desse termo.
Em primeiro lugar, são todos seres femininos, e por isso trazem consigo o encanto, mas também a perdição. Outra característica inerente à condição de sereia é a beleza estonteante. Sereias podem ser brancas, negras ou ameríndias. Podem ter rosto oriental, escandinavo ou mediterrâneo, conforme o lugar onde vivam, mas serão sempre lindas. E é preciso que sejam assim, senão já nem existiriam mais.
Apesar disso, as sereias também sentem medo. Afinal, o medo é a garantia da sobrevivência de qualquer espécie, mesmo as imaginárias. E foi por isso que, quando os conquistadores europeus se espalharam por todas as ilhas do Caribe, fazendo dos temerários Caraíbas um povo extinto, as sereias cuidaram de fugir, e enquanto algumas  se dispersaram no Atlântico, outras acompanharam os remanescentes dessa raça guerreira na travessia do planalto das guianas para o rio Amazonas, onde seriam conhecidas como iaras. Afinal, naquela imensidão de água doce, que começava com filete de água que escorria dos Andes e atravessava toda a hileia para desaguar no Atlântico, representava, sem dúvida, naquele momento, o espaço aquático mais protegido dos homens de roupa de metal e suas armas de trovão.
Sereias não precisam de armas, só de bastante água e da constante apreciação do belo. E por isso vivem assim, como se não tivessem sentido algum. Passam muito tempo mergulhadas, mas de vez em enquanto vêm à superfície, quando acontece de serem vistas pelos humanos.
Uma vez, amanhecendo um dia preguiçoso de água grande no Amazonas, um pescador tucuju encontrou uma dessas criaturas que havia descido a calha do rio-mar até a sua majestosa foz. Ele estava em pé, sobre uma piroga esguia, que deslizava silenciosamente na calmaria do alvorecer, no que hoje é a embocadura do rio Jari. Aqui e ali desferia um golpe com uma longa zagaia de três pontas de osso.
Ela o observou cuidadosamente, por um longo período. Quando ele encerrou a pescaria assim que arpoou apenas um peixe, ela se convenceu de que ele pescava apenas para comer, e isso deixava qualquer sereia interessada. Além do mais, ele tinha o cabelo bem negro e o tom da pele avermelhada igual ao dos caraíbas que ela tanto admirava. Os braços fortes e musculosos ornados com pinturas circulares feitas com seiva de jenipapo e o rosto pintado com urucum lhe davam à pele um bonito tom rosado. Aproximou-se dele. Ou melhor, deixou que ele a visse. Ele se chamava Pará e chamou àquela rainha das águas de Iacê. Contou como gostaria de unir e liderar toda a gente Tucuju com o ideal de viver em harmonia com a floresta. Iacê o ouviu com toda a paciência e disse a Pará que faria por ele qualquer coisa que fosse preciso.
Pará, o pescador, a levou para o seio da tribo. Lá, ela foi a todos conquistando, porque trazia os saberes e tradições de sua espécie, como uma memória genética de onde veio. Assim, logo conquistou respeito entre os membros da tribo, mesmo sendo mulher e estrangeira.
Iacê sentia-se feliz entre aquele povo que bebia suas palavras como um elixir; ficava triste só de pensar que um dia teria que deixá-los. Mas, antes que esse dilema se tornasse insuportável, um evento inesperado a vida de todos transtornou: o naufrágio de uma daquelas enormes embarcações cheias de velas e gente de pele branca ocorreu no grande rio, ao alcance da vista de alguns membros da tribo que, imbuídos das palavras de Iacê, apressaram-se a acudir os sobreviventes do barco que, em questão de minutos, desapareceu no rio.
Gente muito estranha aquela. Em vez de aceitar o socorro, nadavam desesperadamente na direção contrária, ou se aceitavam subir nas canoas indígena, logo, começavam a lutar, causando o naufrágio do socorro e a sua própria morte. Apenas dois deles, um casal bem jovem, restou salvo. Pareciam apavorados, mas gratos em serem tratados de forma tão acolhedora pelos índios.
Iacê olhava preocupada aquela gente de pele bem clara e de cabelo tão fino, com roupas pesadas e muito grossas e que nenhum sentido faziam naquele lugar. Ambos lhes pareciam seres um tanto dissimulados. É como se aceitassem o que lhes era oferecido apenas por temor da reação dos índios, e que, na primeira oportunidade, fariam algo de mal aos tucujus, sem ter remorso nenhum disso. Pará olhava para Iacê e para o português, como a tentar ver se algo surgia entre eles, de tanta atenção que ela dava aos náufragos; ao mesmo tempo, olhava para a moça portuguesa com certo deslumbramento.
Várias luas se passaram e Tomaz, o jovem português, foi conquistando aos poucos a confiança de todos da tribo, menos de Iacê que, por ter outros dons, sentia que jamais podia confiar nele. Já Maria, a bela portuguesinha, esta era bem mais simples e espontânea. Encantada com o jeito gentil de Pará, queria tudo saber sobre os costumes da tribo, acatava as tradições do lugar, ajudava nas tarefas femininas e cada vez mais abandonava as peças de seu vestuário, colorindo seu corpo total ou parcialmente de azul marinho e vermelho vivo, por vezes com os típicos desenhos indígenas, com sua interpretação geométrica da natureza. Ela estava se sentindo cada vez mais à vontade entre os índios nus e isso deixava toda a tribo feliz. Talvez só não tirasse tudo de vez pela presença dos repreensivos olhos de seu conterrâneo Tomaz, que a fazia lembrar, o tempo todo, que ela era europeia e civilizada.
Quando chegou a primeira noite sem lua, Iacê pressentiu que algo ia acontecer naquela noite. Lentamente levantou-se do lado de seu amado pescador sem que ele percebesse, e começou a percorrer o caminho que separava a grande taba da margem do rio, onde ficavam as canoas da tribo. Seus olhos captavam qualquer réstia de luz que existisse, e por isso foi capaz de divisar a silhueta de Tomaz, que tentava, com muita dificuldade, desamarrar uma canoa no escuro. Aproximou-se e disse:
- Por que não pediu uma canoa pra ir embora? Eles teriam dado. Não precisava fugir assim, se arriscando no meio da noite. Ele tomou um susto com a voz doce que parecia vir de todos os lados.
- Não deixariam. Sei bem o que eles vão fazer com a gente e prefiro não esperar... Não quero ser devorado! Olhando com desejo para Iacê continuou:
- Mas eu vou levá-la comigo... Você vai ser minha agora. Suba na canoa, rápido! Ela percebia a lâmina na mão de Tomaz, e nem precisava ver seus olhos para saber que eles brilhavam perigosamente.
- E mesmo assim, deixarias Maria aqui? Mesmo acreditando que ela estaria cercada de índios canibais?
- Maria que se dane! Sei que está enfeitiçada por esses desavergonhados...
Iacê sabia que ele a localizava pela voz, e que já havia chegado a uma distância suficiente para alcançá-la, mas não o temeu. Poderia instantaneamente transformar-se em um facho de luz, tornando inócuo o bote do português. Mas não foi preciso. Um golpe de borduna vindo do nada atingiu de raspão a mão de Tomaz, fazendo com que a arma voasse longe.
- Achas que vais levar minha mulher assim? Depois de tudo que fizemos por vocês!
A voz de Pará parecia retumbar na noite. O índio falava enquanto desferia vários golpes, e Tomaz se esquivava como podia. Vendo a morte do branco era só uma questão de tempo, Iacê usou seu poder para jogá-lo dentro da piroga, rebentar as amarras e fazê-la ganhar o rio. Percebendo o acontecido, enfurecido com a atitude de sua amada, o pescador desferiu uma bordoada na direção de Iacê que, não esperando por isso, foi atingida de raspão, caindo na água. Ato contínuo, Pará deu um salto para dentro da canoa que já se afastava com Tomaz. Com o peso súbito, a canoa desequilibrou e os dois caíram na água.
No rio, Iacê recuperou instantaneamente sua forma de sereia, e captava como em câmera lenta a luta dos dois entrelaçados. Sabia que jamais conseguiria separá-los; Então usou seus poderes e fez suas mãos tornarem-se nadadeiras, e seus pés juntarem-se como um rabo de peixe, tomando a forma e a estrutura adequada à vida na água. E quando os dois se viram assim, fugiram apavorados, em direções diferentes.
Somente Iacê seria capaz de captá-los dentro d’água. Ainda viu ao longe o salto elegante do boto tucuxi,  no qual se transformou o português - enquanto que, no lado oposto, nadava frenético um boto cor-de-rosa que tinha na parte ventral uma bela cor avermelhada, nosso índio tucuju. Pará, que daí em diante ocuparia sua vida em transformar-se ocasionalmente em um belo rapaz e conquistar e engravidar mocinhas desavisadas dos rios da bacia amazônica.  Já a missão do boto tucuxi, esse, além de encantar, quando de bom humor, se ocuparia em empurrar náufragos para a salvação, mas pobre daquele que desferisse um golpe em sua direção.  Era morte certeira.
Iacê retornou à forma humana e voltou à aldeia para contar a verdade aos índios e pedir que cuidassem bem e até devolvessem Maria aos seus, se assim ela o desejasse. Pediu ainda que não esquecessem seus ensinamentos e que neles reverenciassem para sempre a memória de Pará. Depois disso pulou de volta ao rio para esperar o resultado de sua incursão no mundo dos homens.
O fruto que levava no ventre se chamaria Icoaracy. Iacê ainda assistiria em sua longa vida de sereia a lenta extinção do povo Tucuju e a expansão daquele povo de pele pálida por toda a região do território amazônico. Mas não desanimou por isso, afinal, sereias vivem por aí, a encantar desavisados e sonhar que vão transformar o mundo.

(Maria Ester)
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Apresentamos ao leitor deste blog o primeiro livro de Maria Ester, socióloga amapaense, que estreia com uma ficção que tem como cenário o território amapaense, misturando fatos históricos na sua narrativa.


"O romance “As aventuras do professor Pierre na terra tucuju”, de Maria Ester Pena Carvalho, mostra que se há uma característica marcante na história e na cultura amapaense, essa é a afetividade, e, por meio dela, aborda a formação dessa cultura sob a perspectiva de um francês que escolheu morar aqui, e que ao longo do romance vai descobrindo o porquê dessa escolha no “jeito do povo daqui”.
A autora é uma socióloga amapaense, funcionária pública estadual, que, do jardim de infância à universidade, estudou na escola pública. Filha do professor David Miranda dos Santos, ela recebeu de seus pais incentivo para ler e ouvir histórias amapaenses, e disso resultou a criação de seu romance histórico, e o personagem central da obra o aventureiro professor Jean Pierre, e que representam, na realidade, a permanente luta do homem comum por uma humanidade melhor.
O personagem tem muito dos sonhos da autora, como também das vivências de seu avô, Teodomiro Pena, contador de muitas histórias, resultantes dos seus bem vividos 98 anos, mas tem muito mais de nós, professores, que construímos nossa felicidade estudando, pesquisando, investigando e partilhando o que sabemos com os outros, em um processo permanente de retroalimentação do saber.
Talvez por isso este romance proporcione uma leitura tão agradável e uma história cheia de esperança."
(João Wilson Savino Carvalho, escritor e professor)


Resumo da obra:
O romance trata da formação da cultura amapaense sob a perspectiva de um francês que escolheu morar em Macapá dos anos 1970, e que ao longo da narrativa vai descobrindo o porquê dessa escolha “no jeito do povo daqui”.
​ O personagem principal é um solitário professor de francês, que tem a sua razão de viver na pesquisa sobre o eletromagnetismo relacionado com os fenômenos do tempo e que vive intensamente os seus valores morais em permanente conflito com sua curiosidade científica, mas nada tem de super-herói, muito pelo contrário: ele é um homem comum de sua época, que, por conta de sua descoberta, tem o privilégio de vivenciar várias épocas.
​ Talvez por isso seja tão fácil apaixonar-se por esse personagem, o francês mais amapaense que já passeou pelo tempo, pela geografia, pela história e pela cultura de nossa terra, sempre tentando melhorar o mundo, sofrendo alegrias e decepções, mas sempre aprendendo muito com cada aventura vivida.

O livro traz uma crítica sutil à época relatada, mas também um registro, porque recheado de fatos, de lugares, de modos de pensar e de traços culturais verdadeiros (música, pintura, artesanato...), apresentados como responsáveis pelo modo de ser do amapaense, buscando-se nele abordagem bastante agradável e de fácil leitura.
Maria Ester Pena Carvalho

Para a autora:
"O amapaense é um povo que pode orgulhar-se de ter uma cultura própria e uma história fantástica, embora pouco contada. Na verdade, é possível notar entre os estudantes até certo afastamento das coisas de nossa terra, com toda a alienação que disso resulta.
            A literatura tem um papel de suma importância na compreensão do contexto histórico-cultural de uma sociedade. De fato, nenhuma tese acadêmica ou livro didático é assim tão eficaz para incentivar as crianças e os jovens na busca por um conhecimento mínimo da história, da geografia, da política e da cultura regional.
O que acontece é que ninguém ensina história, geografia ou política com tanta leveza como o autor de um romance histórico, seja real ou fictício, pois nele se consegue passar ao leitor a vivência de todo um contexto de interesse histórico.
Os romances com histórias pautadas no realismo (fantástico ou não) divertem as pessoas de qualquer idade, mas principalmente, inspiram jovens e crianças pela leitura descompromissada, já que trazem histórias que poderiam ser vividas por qualquer um de nós, onde o fantástico da história é apenas o mote da criação.
            Por isso a presente obra foi pensada como um constante trânsito entre três gêneros literários narrativos: ficção, realismo fantástico e romance histórico; porém, sem se prender realmente em nenhum deles, mas narrando e refletindo sobre dados históricos do Estado do Amapá, em meio a uma trama que aponta fotos e fatos geográficos e culturais, destacando obras artísticas e causos políticos de cada época, todos engendrados por uma narrativa imaginária. O romance “As Aventuras do Professor Pierre na Terra Tucuju” é uma tentativa de alcançar este objetivo, misturando um pouco de romance histórico com uma perspectiva sociológica da realidade, trazendo fragmentos da história e da cultura dessa terra, focado por um viés de realismo fantástico moderado, com uma pequena contribuição de alguns trabalhos acadêmicos que abordam acontecimentos fundamentais para o destino da região, fazendo assim conexão entre episódios da vida real com a história desenvolvida na obra literária, por meio de uma constante conversa entre o real e o imaginário.
Mas é, acima de tudo, um romance que busca provocar a reflexão sobre alguns dos aconteceres que estão nas raízes da formação do Amapá, e suas consequências diretas para a vida dos amapaenses de hoje.
A autora no dia do lançamento com familiares
            Evidentemente, os personagens são fictícios, e qualquer semelhança com personagens que por ventura (ou desventura) tenham vivenciado aventuras similares, será mera coincidência.
            Por fim, a inspiração para esta obra está na antiga literatura hebraica, na história de Abimaleque, salvo da destruição de Jerusalém viajando no tempo por obra divina, pela gratidão do Profeta Jeremias, que pede a Deus por ele; no que teria acontecido com o famoso navio americano do “Projeto Filadélfia”, em que não apenas o navio, mas também os tripulantes passaram a desaparecer e reaparecer; e por fim, no conto japonês de 2.000 anos de idade, denominado “Urashima”, um dos mais antigos a abordar o sonho permanente da viagem no tempo".  
A AUTORA.
Nota do editor:
Fotos e textos fornecidos pela autora 



Alguns livros de Maria Ester


Contatos com a autora:
(96) 99963-6477

O livro está à venda nas bancas e livrarias de Macapá e também pode ser adquirido com a autora
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Os Caminhos da Literatura do Amapá – Comunicação

Comunicação proferida por Maria Ester Pena Carvalho, socióloga, escritora amapaense - em 31 de julho de 2014 -14h30, Café Literário – Clube de Autores, Circuito Off Flip das Letras(RJ)/Abeporá das Palavras (AP), 12º Festa Internacional do Livro de Paraty (FLIP) – 30 de julho a 3 de agosto de 2014, em Paraty/RJ. Bate-papo sobre os caminhos da literatura amapaense, com Carla Nobre, lançamento de livros, sessão de autógrafos e sarau literário.

Maria Ester na Off-Flip em Paraty ao lado do escritor Ovídio Poli


Introdução: 
O fundamento desta Comunicação é uma pesquisa sobre os caminhos e percalços da literatura amapaense, vivenciado por esta autora, em função da participação no Edital de Literatura “Simãozinho Sonhador” e a edição do romance “As aventuras do professor Pierre na terra tucuju”.
Inicio esta fala afirmando que realizei um sonho de infância com a publicação desse romance, a de ser uma escritora de romances regionais, coisa que eu via como improvável no Amapá, pelos inúmeros desafios envolvidos na concretização desse sonho, como o difícil acesso à produção literária local e ao mercado consumidor de literatura, muito restrito no Amapá, mas, principalmente, porque queria escrever romances nos quais o enredo partisse dos causos, das memórias e das histórias do estado do Amapá, onde tudo se passasse no nosso estado e com figuras e personagens amapaenses.
Foi exatamente nesse ponto que senti falta de contato com autores e obras amapaenses, com livros que descrevessem a nossa realidade. Essas dificuldades são encontradas por ser o Amapá lugar distante, em relação aos grandes centros da produção literária no Brasil. Ou seja, da primeira dificuldade, a geográfica, vem as relativas à construção material do livro ( revisão/editoração) no estado, além da falta de espaço para troca de ideias, experiências  com autores do Amapá e de outros estados da Federação, entre outras, comuns a todo a Amazônia.
Em função disso, por ter sido incentivada por um Edital de Literatura, posso dizer que sou fruto de uma política pública de valorização da literatura no estado do Amapá, resultante da Feira do Livro do Amapá (FLAP),  que vem dinamizando o mercado editorial no Amapá.
Fiquei realmente muito feliz quando saiu o resultado e constatei que estava selecionada entre os contemplados, com meu nome relacionado junto com escritores de destaque no cenário literário amapaense, pessoas que eu já conhecia pelos seus trabalhos publicados, como  Joseli Dias, Manoel do Vale, Herbert Valente, Ivan Carlo, Sergio Salles,  Ângela Nunes, além daqueles que não tinham publicação significativa mas que tinham trânsito nos grupos de poesia de Macapá. Isso significa que essa política de estado deu espaço para se conhecer gente nova e engajada na luta por uma literatura mais acessível ao povo amapaense, como os jovens Tiago Quingosta, Rodrigo Odisseu, Samila Lages, Claudia Almeida, Inácio Sena.
Para iniciar o traçado dos caminhos da literatura amapaense, se faz necessário lembrar de alguns autores que deram a essa literatura uma feição própria, como Alcy Araujo, Arthur Nery Marinho , Manoel Bispo, Aracy de Mont’alverne,  Obdias Araujo, Alcinea Cavalcante,  Paulo de Tarso, Isnad Lima, Herbert Emanuel, entre outros nomes fortes da literatura amapaense e que a produção literária no Amapá, sempre existiu, mas o acesso as obras desses autores nunca foi fácil.  Um exemplo fácil disso é o meu caso. Nas escolas em que estudei (escolas públicas) não tive nenhum experiência com a literatura regional, o que me deixou muito preocupada com os rumos da literatura e educação no Amapá por conta disso. Eu, felizmente, tinha essa curiosidade de conhecer de saber como se dava a criação literária desses escritores reconhecidos no Amapá, mas que eu tinha tido a oportunidade de conhecê-los apenas de nome. Sabia principalmente daqueles que faziam poesia, porque o forte da literatura amapaense sempre foi a poesia. A prosa também era feita, mas em menor escala, só recentemente vêm recebendo mais atenção no Amapá.
Pessoalmente, me interessei pela prosa em função de leituras que me influenciaram e até hoje me inspiram, como, por exemplo, Jô Soares, com seu estilo de descrever os lugares do Rio de Janeiro, em uma determinada época, que nos dá a ideia de que estamos vendo aquele local, respirando o ambiente, a cultura de um lugar ou de uma época.
Entre os autores amapaenses de grande influência para mim, cito a professora Aracy de Mont’alverne, autora de um poema chamado “Festival de bem-te-vis”, um dos meus preferidos e dos primeiros que me atrevi a declamar.
De forma geral, na literatura do Amapá, os escritores que mais me influenciaram foram o Fernando Canto, talvez pela formação em Sociologia, como eu, e a Alcinea Cavalcante, que produz poemas com os quais me identifico, além, é claro, de sua produção literária voltada para a questão política e social. Estes serão, sempre, nomes de peso e de referência, em nossa literatura.  Fernando Canto é filho de uma professora e foi pelos livros de sua mãe que ele iniciou sua paixão pela leitura e literatura, inspirado pela obra de Cervantes, “Dom Pixote de La Mancha”, uma de suas primeiras leituras, deu vazão ao seu amor pela literatura escrevendo letras de músicas, poesias e contos que foram primeiramente publicados no jornal “O liberal” em Belém do Pará na década de 70, mas somente a na década de 80 esse autor teve sua primeira publicação, já na época em que concluiu seu curso superior e voltou para Macapá, tendo suas crônicas e contos publicados em vários jornais local do nosso estado, na época ainda que aqui era Território Federal.  Em 1973 ainda foi vencedor de um prêmio de festival da canção, em Minas Gerais, com a música do Grupo Pilão “Quando o Pau Quebrar”. Dessa música faço um comentário em meu livro, uma homenagem a esse compositor e escritor no contexto do romance “As aventuras do professor Pierre na terra Tucuju”, na página 71.
Na poesia um pouco mais recente, destaco os nomes de Carla Nobre, Pedro Stocks, Thiago Quingosta, Lara Utizg, Tiago Soeiro, Annie Carvalho, Andrezza Gil, Aline Monteiro entre outros que são poetas mais novos, mas que apresentam alta sensibilidade e qualidade poética.
Na prosa, em especial nas crônicas e nos contos, temos Paulo de Tarso, com obras bem conhecidas dos amapaenses, como "O Benzedor de Espingarda", "Os silêncios da Eternidade". É um autor presente em várias antologias e que trabalha tanto a poesia como a prosa. No mesmo sentido Cezar Bernardo, Luli Rojanski, Wilson Carvalho, Mauro Guilherme, Osvaldo Simões, Manoel do Vale, são alguns dos nomes de destaque da literatura do Amapá que continuam produzindo, buscando ampliar os horizontes da literatura amapaense.
Enfim, o Amapá tem hoje diversos grupos literários, que vem mudando o panorama da literatura em nossa terra, atraindo os jovens para a literatura, como o Grupo Poesia Boca da Noite, Pena & Pergaminho, Poetas Azuis, entre outros, e isso é muito bacana, pois vislumbro um portão de entrada para novos nomes da literatura. Por isso eu apoio e participo desses grupos, compartilhando nossas experiências, poesias e comentários, em nossos eventos regularmente analisamos obras de autores amapaenses, em um trabalho do qual muito me orgulha fazer parte.
Hoje a literatura amapaense esta dando um salto, principalmente depois da FLAP, as pessoas já olham os poetas e escritores locais de uma outra forma, estão tomando consciência do valor do livro, da leitura e da literatura, tão importante para construção de cidadania de um povo. Isto é um ponto positivo pra a identidade amapaense.
Atualmente, temos uma leva de jovens escritores publicando na prosa e na poesia, jovens que levantam a bandeira da afirmação que poetas, escritores e amantes da leitura e da literatura precisamos ser unidos, trabalhar em conjunto para construção de mundo melhor a partir da literatura.
Mas, principalmente, as pessoas no Amapá estão tomando consciência que nós, do povo amapaense, é que devemos contar as nossas histórias, as histórias dos amapaenses, da cultura, identidade e jeito do povo do Amapá, o jeito tucuju, tudo isso, com o nosso olhar e na nossa perspectiva. As pessoas estão tomando consciência que precisamos reconstruir as nossas histórias, com heróis, mitos e lendas do Amapá e dos amapaenses, e tudo isso num trabalho em conjunto com a educação. Essa é a minha bandeira: o resgate de memórias e histórias amapaenses como mote de nossas criações literárias.

Finalizo minha fala pedindo licença para declamar “Prazer, sou Maria” de Alcinéa Cavalcante, poetisa e jornalista amapaense que será homenageada no meu próximo livro "As aventuras do professor Pierre II - novas aventuras"

Um comentário:

Marcia Viana disse...

Livro maravilhoso, literatura rica em detalhes e fatos históricos, apesar da ficção, remontes antes falados apenas por nossos avós....
Incrível e apaixonante história contada por essa autora simples e de auto teor intelectual.
Parabéns a autora e principalmente ao povo amapaense por mais um rico material no acervo literário TUCUJU.
Macione Viana