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3 de nov. de 2012

CASTANHEIRAS E LIVROS

Entre Castanheiras e Livros

(ou de como gosto de livros!)

Nas minhas viagens, lá pelo Rio Iratapuru, no vale do Jari, encontrei com velhos castanheiros. E neles estranhei uma atitude. Incentivados pelo Governo de João Alberto Capiberibe, na década de 1990, eles estavam não mais somente coletando as castanhas do Brasil. Começavam a plantar essas sementes. Aí pensei com a mente viciada em cidade e na vida urbano-industrial: como alguém com seus 60 anos ou mais resolve plantar uma castanheira? Sabemos que essa espécie começará a dar os primeiros frutos, próximo de seus 20 anos. Ou seja, raciocínio da pressa e dos nossos imediatismos, de quem corre contra o tempo do relógio, quem planta nessa idade não colherá os frutos! De fato, é isso mesmo! Mas o que nos foge a compreensão é o fato de quem faz assim, não é pra si mesmo, mas para os seus, os que virão depois. É como uma poupança intergerações.

Mas estamos falando de livros, de leitores e de autores. Dos castanheiros voltarei mais adiante a falar deles. Bom, dos livros e das leituras, tenho a dizer que numa feira de livros, os livros são as estrelas principais. Para tanto, vem a pergunta de nossas “primeiras vezes”. Quem não se lembra do primeiro amor? Quem se esqueceu do primeiro beijo? Pois bem, eu lembro! Mas também, lembro-me dos meus primeiros livros. A minha história com a leitura começa quando eu não sabia ler. Éramos uma família bastante pobre. Televisão não havia em casa. A emoção ficava por conta das leituras que minha mãe fazia. Umas histórias ela lia. Como não havia tantos livros, outras ela fazia de conta que lia. Hoje sei que ela inventava personagens e enredos, mesmo que olhando para livros repetidos. O primeiro livro escutado: “No País dos Anões”. Ele tinha capa dura com a gravura de um menino, um cão e letras coloridas. Escutar a história mais de uma vez não perdia o encanto.

Como prêmio de aluno mais aplicado, existia isso na minha escola, ganhei da professora Maria do Carmo, na quarta série, um livro: “Maravilhas do Conto Popular”. Era uma coletânea de contos de várias partes do mundo. Viajei muito nos textos! Que encantamento! Que leitura instigante!

E meu primeiro livro proibido? Devo dizer que não era literatura erótica. Tratava-se de “Os Homens do Kremlin”. Com uma foice e martelo na capa, o livro era proibidíssimo, quando eu o conseguira de forma clandestina. Ele teria sido dado a um primo meu. Descoberto pela família, estava em um monte de lixo para ser queimado. Eu o salvei! (Herói de livro existe?) Com muito medo, e muito garoto, escondi no meio das minhas roupas. Lugar de difícil acesso: um guarda-roupa de menino! Insuspeito, entre tanta bagunça, lá foi seu abrigo secreto! Li com misto de entusiasmo e medo de ser preso ou morto pela Ditadura Militar. Mas um sinistro aconteceu com a obra: ela sumiu, misteriosamente. Não sei se foi isso, mas certa vez num vacilo meu minha mãe deu de cara com o livro. Queima imediatamente, deu a ordem de mãe aflita. Prometi a ela, mas não cumpri. Salvei de novo o livro. Descumpri uma ordem, mas por uma causa nobre. Se foi minha mãe quem pôs fim a ele, compreendo sua preocupação e seu gesto! Tempos depois, bem depois, consegui adquirir outro exemplar, num sebo no Rio de Janeiro.

Como um livro pode mudar sua vida? Como pode mudar seu jeito de ver o mundo? Geralmente livros teológicos ou de autoajuda o fazem. Mais raramente, os de cunho filosófico. No meu caso foi um pequeno livro, quase de bolso. “O que é dialética” de Leandro Konder, uma leitura seminal sobre a dialética. Depois dele não fui mais o mesmo nem o rio mais o mesmo rio, parafraseando Eráclito, o obscuro. Interessante que à época era acadêmico de Farmácia na UFPA. Mas entre químicas, físicas e biologias, enfurnava- me nas alas de baixo da biblioteca daquela universidade. Meus colegas na ala de cima, com as ciências hards ficavam sem entender porque me viam nas prateleiras, ora das ciências históricas e sociais, ora das artes e literatura.

Agora um livro proibido de poesia erótica de leitura obrigatória: “O Amor Natural” de Carlos Drummond de Andrade. Livro proibido de leitura obrigatória? Um paradoxo? Não! É mais um marketing aos bons leitores. Uma obra publicada postumamente, porque Drummond não reuniu coragem em vida para lançá-lo. Fácil de se entender, basta lembrar a imagem cândida do poeta maior e o poder dos seus textos incendiários. Vale lembrar uma frase do poeta: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos”. Também quero lembrar outra frase, essa de minha autoria: “Todo poeta deve ser, no mínimo, um pouco maldito”. Essa com aquela, abrem, como epígrafes, meu livro “Brilho de Fogo e outros poemas de amor”, com textos sublimes, sensuais e eróticos, culpa do “Amor Natural”.

E por falar em livros escritos por mim, completei 11 títulos, na condição de autor e/ou organizador das obras. São das mais variadas temáticas. Tem de ciência e tecnologia, de gestão ambiental, de plantas medicinais, de fotografia, de poemas, de história, entre outros. E outros novos já estão entrando no prelo.

Aficionado pelos livros acabei virando editor. Em formato de ONG, criamos uma editora, Centro Genildo Batista, e já publicamos dois títulos. Sem fins de comércio e lucro, ela é mais para poder viabilizar a edição de obras locais. Mas foi pelo Instituto de Pesquisas cientificas e Tecnológicas do Amapá que publiquei os primeiros títulos. O IEPA é uma referência no Estado em publicações científicas.

Às vezes, gasto pouco tempo pensando o que seria de mim não fossem os livros que li. Imagino que outra pessoa. Noutras vezes também imagino que poderia ser, quem sabe, mais rico! Mas não sei se seria tão mais feliz comigo mesmo.

Estamos às vésperas da nossa primeira Feira do Livro do Amapá – FLAP. Por sorte, fui convidado pela Cláudia Capibeiribe, Primeira Dama do Estado a fazer parte da organização do evento. Sob o acompanhamento político dela, várias pessoas de variadas instituições do Governo dão os encaminhamentos sempre difíceis de uma primeira vez. Mas tudo anda bem. Afinal, tem uma coisa primordial para seu sucesso: a vontade política de fazer uma feira. E nisso, o Governador Camilo Capiberibe tem se empenhado bastante. É uma política pública de pouco apelo eleitoral, é certo, mas de uma repercussão fundamental na vida e formação de muitas pessoas, em especial, das nossas crianças.

Nesse aspecto, volto ao que comecei falando: dos castanheiros da Reseva do Rio Iratapuru. Lembram que falei de como estranhava um velho coletor de castanha plantar novas castanheiras? Pois então, quero dizer que plantar a Feira do Livro e a Política Estadual do Livro e Literatura hoje é pra quem tem a paciência da colheita no futuro. Mas, enquanto os frutos não brotam e nem amadurecem, vamos nos regozijando com a alegria da germinação, depois do brotar das primeiras folhas, mais adiante com a beleza das mais sutil floração.

Enquanto os frutos não chegam, entreguemo-nos à rega paciente e que o prazer sincero de jardineiros nos entusiasme.

Para terminar, vou às palavras de Bandeira: “Vi terras da minha terra/ por outras terras andei/ mas o que ficou marcado/ no meu olhar fatigado/ foram terras que inventei. (Testamento)”

Feliz dia do LIVRO.

Augusto Oliveira
(Escritor, poeta, professor e leitor, autor, dentre outros, do livro de poemas "Brilho de Fogo")


Contatos com o autor:
oliv.augusto@uol.com.br
Augusto Oliveira no Barco que fica no Museu Sacaca
Foto: Paulo Tarso barros - fev/2012

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