Pesquisar este blog

26 de ago de 2012

MEU GURU - Alcinéa Cavalcante

Publicamos a seguir a crônica de Alcinéa que será leitura do Vestibular da Unifap e indicamos que os alunos também procurem adquirir o livro da autora onde há este e outros excelentes textos.


O MEU GURU – 11/08/09
       Alcinéa Cavalcante (*)
    “Preciso de um guru. De um sábio que me guie quando o coração falhar ante o universo das dúvidas e a condição humana soçobrar nos vagalhões das ondas. De um sábio que esclareça meus mistérios…” (Nélida Piñon)


Uso este trecho de uma crônica da Nélida Piñon porque hoje (e isso não é raro) estou com saudade do meu guru. Nélida está à procura de um guru. Eu já tive um.
Negro, alto, forte, riso gostoso, olhar penetrante, fala mansa e cinco anos mais velho que meu pai. Era assim o meu guru.
Tinha a capacidade de decifrar minha alma, ler meus pensamentos, me fazer rir quando estava prestes a chorar e me indicar caminhos e atalhos quando eu estava perdida e sem prumo.
Meu guru sempre me recebeu de braços abertos e com um largo sorriso no pátio de sua casa, onde passávamos horas conversando sem nem te ligo para o resto do mundo. Eu tinha a impressão que ele sempre estava à minha espera e isso me envaidecia.
Em algumas datas, que ele adivinhava serem especiais para mim, antes de me desejar bom dia ou boa tarde, ia logo dizendo: “Eu sabia que tu vinhas hoje.” E caía na gargalhada. Era uma gargalhada tão marota e tão gostosa que parecia que o mundo inteiro estava rindo com ele.
Ele me contava histórias e estórias. Ah, como eu gostava de ouvi-lo falar das peripécias do meu pai nos bairros boêmios da Pedreira e do Telégrafo, em Belém, e o início do namoro do meu pai com a minha mãe.
Meu guru me contava coisas que aconteceram nesta latitude zero quando eu ainda “nem sonhava em nascer”, me falava de política, de futebol, do cotidiano de gente importante e de gente simples desta terra. Tecia suas narrativas com a mesma habilidade com que confeccionava os ternos das autoridades locais e o fardamento da Guarda Territorial.
Meu guru decifrava meus enigmas, desvendava os segredos do meu coração, lia minha alma e meus pensamentos como se estes fossem um manuscrito exposto ali naquele pátio.
Certa tarde estávamos em silêncio, olhando o movimento da esquina (olhando é um modo de dizer, pois eu não via nada), de repente, com voz serena e paternal, ele me surpreende:
- Escuta, quando tu vais resolver isso?
- Isso o que? Perguntei
- Ora, o que? Isso mesmo que estás pensando.
Dei um sorriso amarelo e desviei o olhar. Sim. Ele sabia, tenho certeza, o que eu estava pensando naquele momento em que fingia olhar para a rua.
Como fiquei quieta ele não insistiu. Passados mais alguns minutos de silêncio, ele murmurou: “Ah, esses jovens! Vocês são muito cabeça-dura” e deu uma gargalhada e disse: “Vamos mudar de assunto”. Como mudar de assunto se não estávamos conversando absolutamente nada? Acontece que o silêncio era também uma forma de diálogo, pois para ele meus pensamentos, meu coração, minha alma, eram como um diário que eu tivesse esquecido aberto no portão daquela casa. Meu guru conhecia segredos meus que nem eu mesma conhecia, me ajudava a entender sentimentos, o mundo, a projetar o futuro, a fazer a sementeira correta para colher o bom fruto.
Pois bem, “mudamos de assunto”. Ele passou a me contar como conhecera sua amada, a pequena e cheirosa Joana, com quem estava casado há várias décadas e tinham oito maravilhosos filhos. Um casamento no estilo felizes para sempre. E foram!
O meu guru era um sábio, mas ria das bobagens que eu falava. E, como o guru que a Nélida quer, contestava “com inesperada graça os arroubos da minha liberdade”. Nunca deixou de me alertar sobre os perigos do mundo e me dava lições de como desarmar as armadilhas que eu encontrasse nos itinerários da vida. Também elogiava o meu esforço para ser cada dia melhor. Às vezes até exagerava nos elogios. Só para me alegrar.
Certo dia, quando era maio no mundo, meu guru partiu. Sereno. E eu fiquei assim, como a Nélida Piñon, sem guru. Mas com uma grande vantagem sobre ela: já tive um.
Ops…. Tive??? Calma aí. Acho que ainda tenho, pois no exato momento em que eu colocava o que seria um ponto final neste texto quando digitei a palavra “um”, ouvi aquela gostosa e marota gargalhada e parece que todas as estrelas riram junto.
Ah, esse meu guru…



(*)Alcinéa Maria Cavalcante Costa, macapaense, nascida em 19 de fevereiro de 1956, jornalista e poetisa,  participou das seguintes antologias poéticas: Coletânea Amapaense – Poesia &b Crônica (1988); No Limiar do Terceiro Milênio (Casa do Poeta Brasileiro, Brasília, 1999) e Antologia Del’Secchi – Volume IX (Rio de Janeiro, 2000) e de 2 antologias (de poetas e cronistas do Amapá, publicadas pelo GEA). 
Em 2001 lança sua primeira obra poética Estrela Azul, pela Tarso Editora. Em 2008 publicou, em parceria com Rostan Martins, os livros Sambou e Zero Voto, com “causos” do carnaval e da política. Também publicou, em parceria com Osvaldo Simões Filho e Rostan Marins Varal (poemas, 2008) e em 2012, Paisagem Antiga (poemas e crônicas), livro do qual fiz o seguinte comentário:
Alcinéa autografando Paisagem Antiga para a amiga
e poetisa Deusa Ilário em S. Paulo durante a Bienal
"Alcinéa, o que dizer dos seus textos – os poéticos e os que, não sendo necessariamente poesias, mas crônicas, ou “cronipoemas”, estão recheados de cores (a primazia do azul infinito), sabores, ternuras, estrelas, flores, pássaros, borboletas, amores e até camaleão – ou seria iguana?
Leio tudo, como se dizia antigamente, de um fôlego, e percebo que os poemas e os “cronipoemas” estão com as palavras exatas, sem aqueles esquadrões de adjetivos. Parece que sua mão de poeta e mente treinada nos textos claros, objetivos e sintéticos do jornalismo, ao juntar a alquimia verbal que o seu estilo poético inato tão bem o demonstra, surgem imagens plenas de ternura, sensibilidade e aquela saudade e nostalgia dos tempos da infância que ficou cristalizada na memória poética – que tem o dom de captar o sentido do belo como se plantasse em um jardim flores multicoloridas que desabrochariam ao nascer do sol e continuariam a embelezar a noite, o orvalho e as estrelas – principalmente as azuis da sua Via Láctea setentrional.
A bela e comovente crônica que revisita a memória sagrada da professora Deuzuíte Cavalcante, sua mãe, a traz de volta, a coloca mais uma vez no plano existencial e familiar como se ela estivesse em viagem, ou mesmo dando aulas ou fazendo um café na cozinha para servir à família numa manhã morna e calma da Macapá territorial. É um texto construído com sentimento, da sua história de vida, mas que atinge a dimensão universal do amor filial, do infinito amor que tece os sustentáculos da nossa existência e nos torna mais fraternos."
Paulo Tarso Barros
Contatos com a autora:

Um comentário:

TiagoQuingosta disse...

Já havia lido o texto num compêndio de crônicas e contos amapaenses. Adorei.