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18 de mai de 2013

CENTENÁRIO DE ARACY MIRANDA DE MONT'ALVERNE

A Escola Estadual Professora Aracy Miranda de Mont’Alverne realizou, em 18 de maio de 2013, as comemorações em homenagem ao centenário da professora Aracy e aos 16 anos de criação da escola.
Com a presença de familiares da patrona, dentre os quais o coronel Mont’Alverne (neto), Sebastião Mont’Alverne (filho), Rosana (bisneta), a irmã Nair de Moura, a secretária de Educação do Estado professora Elda Gomes e da professora Maura Leal. Também fui convidado, com muita honra, por ter sido o editor do seu segundo livro “Arquivos do Coração” (1997) e amigo da família.
A escola mobilizou todos os professores, equipe técnica, de apoio e alunos e realizou um evento muito bem organizado, com apresentações de música, teatro e poesia, cujos protagonistas foram os próprios alunos. A diretora da escola, professora Cristiani Maciel Guimarães está de parabéns, bem como todos os integrantes de sua equipe.
Também foi exibido um vídeo, com uma entrevista realizada provavelmente em 1997 com a professora, Nesse importante depoimento ela relata os fatos marcantes de sua história desde que chegou ao Amapá, em 1942 e começou a lecionar à margens do rio Araguari na localidade de Redenção.



Vejam algumas fotos do grande acontecimento.






MACAPÁ CINDERELA


Nesta singela narração,
Fiz um poema de uma história,
Fazendo a comparação
De uma cidade humilde
Do interior do Brasil
Como uma pobre menina
Que de repente tornou-se
Muito famosa e gentil!


Macapá já foi outrora
Uma menina do mato...
Tão pequena, tão franzina,
Doentia, retraída,
E que vivia esquecida...
Muito pálida e quieta,
Era quase analfabeta...


Mas um dia apareceu
Na linha do seu destino
Um homem forte e bondoso
Que a protegeu e ajudou.
Trabalhador, caridoso,
A menina transformou.
Não sei se alguém o conhece,
Mesmo de nome aqui,
Esse de quem vos falo,
É o Coronel Janary!


Hoje a menina está moça
E ainda está crescendo,
Já é por todos notada,
Está se desenvolvendo,
E quando ouve dizer
Com toda admiração,
Que é São Paulo ou Brasília,
Do Brasil Coração
Ela toda ufana diz: -
“Eu também sou importante,
Sou a cabeça do país!”


Vive feliz, tem de tudo,
Cresceu muito, ficou forte,
É a CINDERELA DO NORTE!
Tem saúde, tem escolas
Para se aperfeiçoar,
Tem ouro e joias bonitas...
Até não usa mais chita!
Vem gente lá de outras terras
Aos grupos, lhe visitar,
É gentil, não é orgulhosa,
A todos sabe tratar
E na terra onde vive
Sob o sol do Equador,
Não teme o frio intenso
E nem morre de calor!


É morena, é tão formosa,
Educou-se, está famosa,
É das dez mais elegantes
Do lindo Brasil gigante...
É tão bonita e gentil!...
E querem saber de uma?
- Macapá está pensando
Que já vai se preparando
Para ser MISS... BRASIL!

* * *

A autora deste poema nasceu em 13 de fevereiro de 1913, em Colares - PA, chegou ao Amapá um ano antes da criação do Território Federal do Amapá e logo foi lecionar no interior, na região do Araguari, já casada com José Jucá de Mont’Alverne. O casal gerou 7 filhos. Há 9 anos ela se foi, no dia 01/02/2002, mas deixou um legado de amor, dedicação, poesia, ensinamentos e muitas lembranças marcantes na história.

Sua história, como a de muitos pioneiros que ingressaram no magistério, revela uma vocação amorosa para a educação. Já idosa e com saúde frágil, em 1995, disse-me ela que iria comprar uns livros e lecionar de graça em sua casa. Sentia falta dos jovens, do ambiente escolar, da sua atuação durante muitos anos como mestra dinâmica, criativa e sempre envolvida com as atividades cívicas e educativas que ocorrriam em sua época e que marcaram de forma tão positiva várias gerações. Foi muito significativo o gesto do governador João Capiberibe, do secretário de Educação Ruben Bemerguy e do assessor especial de Juventude Randolphe Rodrigues quando se uniram e batizaram uma escola no bairro do Buritizal com o nome da mestra, em 1997, e também foi lançado seu livro de poemas Arquivo do Coração, que tive o privilégio de fazer a editoração.



Nossos pioneiros, que neste blog são relembrados e reverenciados com  gratidão e respeito, merecem ter suas histórias conhecidas pela novas gerações que, salvo raras exceções, esquecem com facilidade aquelas pessoas que ajudaram a construir e consolidar o Estado do Amapá.
Professora Nair Miranda,
irmã da prof. Aracy


A professora Aracy, mestra do magistério, presença constante na vida cultural e educacional, deixou dois livros de poemas: Luzes da Madrugada (1985) e Arquivo do Coração (1997) e teve participação em várias antologias.

(Texto: Paulo Tarso Barros)


 
Ficha da professora Aracy - arquivo da APES


Abaixo, publicamos um dos mais  ternos poemas que retratam a alma singela e lírica da nossa primeira poetisa.

FESTIVAL DE BEM-TE-VIS



Era costume, todas as manhãs,
na copa da mangueira, em nossa casa,
a sinfonia dos pássaros ruidosos
onde se destacavam: bem-te-vis, suis,
maria-mulatas e até periquitos.
Entretanto, os mais alegres e mexeriqueiros
eram certamente os bem-te-vis.
Parece que adivinhavam a hora de
acordar e vinham cantar
ao lado da janela do meu quarto
no caramanchão de trepadeiras de maracujá.


Como eu gostava de ouvi-los, tão contentes,
parecendo me provocar, dizendo com
insistência:
Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!
Eu, sorrindo, depressa respondia:
não viste nada! Eu juro que não viste!
E ele, continuando persistia:
te vi! Te vi! Te vi!


E hoje pela vida vou passando
sempre ouvindo, vez por outra
um bem-te-vi cantando!
E, em tudo o que faço vou lembrando
que existe ainda um bem-te-vi
a me alertar dizendo: bem-te-vi!
Nas grandes cidades
já não há quintais nem árvores frondosas
para festivais de bem-te-vis.
Porém, a saudade renova esse estribilho:
enquanto houver uma árvore de folhas verdes
balançando ao vento,
erá, com certeza um bem-te-vi contente
dizendo com insistência: bem-te vi!

* * *

POEMA PARA ARACY



Praia de Colares-PA

Nem mesmo sei se és rosa
ou maxi-preciosa pedra
(ou um misto de pedra-flor-mulher
a nos encantar e nos fazer feliz).
Sei que te chamei de pérola,
mas isso foi muitíssimo pouco
pelo amordemais que por ti sinto.
Mesmo que eu fosse ao dicionário
tentando infinitezimar minhas palavras
em busca de jóias raras para te louvar
- e bem mais que isso merecias;
não apenas um estado tão verdelindo.
Por isso também te ofereço
todo o meu Estado e sua imensa poesia,
todas as nossas histórias tão parecidas
para que te encantes nesta longa vida
ue o Deus Poeta te presenteou
e que retribuis a nós todos
com tamanha generosidade.

De Colares, cidade natal,
és o mais e maior colar
a adornar não um humano pescoço,
mas a alma de um povo
com essa fina e doce poesia,
que é, em síntese,
pétala, pólen, poder e polifonia...

(Paulo Tarso Barros)


Eu e a professora Aracy (1996)

3 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Paulo de Tarso,
Não existem palavras para expressar minha gratidão pela homenagem à minha mãezinha, que Jesus levou para outra morada.

Que Deus o abençôe e mais uma vez o meu MUITO OBRIGADA!
Lídia Mont'Alverne

Beth Zhalouth disse...

Parabéns pelo excelente blogue, estarei sempre por aqui, passando horas agradáveis lendo os autores amapaenses ou os autores que vivem aqui. É um belo programa de lazer, a população agradece, Paulo, Deus o proteja, e a sua família também. Um abraço, Beth Zhalouth

APES disse...

Obrigado a vocêss, acho que isso é o mínimo que podemos fazer por essas grandes personalidades que vieram para o Amapá e aqui deixaram os frutos valiosos de muito trabalho e dedicação.