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6 de jan de 2011

ALCY ARAÚJO - HOMENAGEM DA APES A UM DOS GRANDES MENESTRÉIS DA AMAZÔNIA BRASILEIRA

Texto: Paulo Tarso Barros

Alcy Araújo Cavalcante, paraense da Vila de Peixe-Boi, município de Igarapé-Açu, nasceu no dia 7 de janeiro de 1924. Morou em Belém durante algum tempo com a sua família e depois viveu em algumas pequenas cidades do interior. Na capital paraense estudou na Escola de Aprendizes Artífices, tornando-se marceneiro, profissão que exerceu durante algum tempo. Mas sua vocação era mesmo para as letras e, a partir de 1941, trabalhou nos jornais Folha do Norte, O Liberal, Imparcial e o Estado do Pará. Chegou a Macapá em 1953 e logo ingressou no serviço público como redator do gabinete do governador Janary Nunes. Em 1956 foi chefe de gabinete do governador Amílcar Pereira. Foi diretor da Imprensa Oficial (1957), oficial de gabinete (1961), chefe de expediente da Secretaria Geral do Governo (1964), trabalhou como assessor administrativo na Câmara Municipal (1971), diretor da Rádio Difusora.


Alcy Araújo foi sobretudo um jornalista que trabalhou em muitos jornais, revistas e no rádio. Ao lado de Álvaro da Cunha - que chegou a Macapá em 1946 e outros funcionários do primeiro escalão, Alcy sempre esteve envolvido com as atividades culturais e intelectuais do Amapá, principalmente a literatura. Em 1957, com a fundação do Clube de Arte Rumo, logo surgiu a revista Rumo e, em 1960, a primeira antologia poética Modernos Poetas do Amapá, da qual foi um dos participantes. Alcy adotou vários pseudônimos para publicar artigos na imprensa visando driblar a vigilância dos governantes militares: Mário Santa Cruz, Nelson Maroin, Sérgio Burocrata, Alcimar Cavalero, Jean Paul e outros. Foi casado com a professora Delzuíte Maria Cavacante, sua primeira esposa, com quem teve os seguintes filhos: Alcione Maria Carvalho Cavalcante, Alcinéa Maria Cavalcante Costa, Alcy Araújo Cavalcante Filho e Alcilene Maria Carvalho Cavalcante Dias. Com a segunda esposa, Maridalva Rodrigues do Santos, casou-se em 1968 e o casal teve cinco filhas: Astrid Maria dos Santos Cavalcante, Aline Maria dos Santos Cavalcante, Aldine Maria dos Santos Cavalcante, Adriane Maria dos Santos Cavalcante e Alice Maria dos Santos Cavalcante. Obras publicadas: Autogeografia (1965), livro de crônicas e poemas e Poemas do Homem do Cais (1983). Participou, em 1988, da Coletânea Amapaense. Em 1997, Alcinéa Cavalcante, em parceria com a Associação Amapaense de Escritores - APES publicou mais uma obra poética: Jardim Clonal. Por iniciativa de Alcinéa (que cedeu as fotos desta matéria), seus poemas são constantemente publicados em antologias, como a Coletânea Contistas do Meio do Mundo (2010) Vale lembrar que em 1960 já se anunciava a publicação de “Poemas do Cais” que só seria publicado 23 anos depois. Deixou ainda várias obras inéditas em prosa e verso. Alcy faleceu no dia 22 de abril de 1989.


Nas palavras de Hélio Pennafort, “Alcy foi um competente boêmio, sagaz jornalista, um incomparável versejador e um carnavalesco de escola, honrando com a malemolência do seu gingado o codinome Nenê da Pedreira, que trouxe de Belém. Titio Alcy foi um dos mais macapaenses de todos os paraenses que ajudaram a desenvolver e animar a cidade”.

Fotografias: arquivos da família


TEXTOS DE ALCY ARAÚJO


FELICIDADE






O poeta hoje está feliz. Está feliz e tem um belo assunto para você. É que neste dia está aniversariando Alcinéa Maria. Não sei se você conhece alguma coisa da minha vida particular e se sabe que eu amo Alcinéa Maria. A que tem cabelos cor de mel e olhos grandes e castanhos, que também me ama, que sente uma necessidade inevitável da minha presença, do meu amor e do meu carinho. Que vai até às lágrimas seu lhe causo qualquer desgosto, mesmo involuntário.


Alcinéa Maria, a que me espera de braços abertos, tendo nos lábios o mais belo sorriso que eu conheço, cada vez que volto para o seu amor, a que vem feliz ao meu encontro, a que pede carinhosamente para que eu não parta, para que eu não a deixe ficar.


Hoje a Bem-Amada está fazendo aniversário e o poeta está imensamente feliz. Confesso que hoje beijei sua face linda, acariciei os seus cabelos cor de mel, sob a luz difusa da aurora e recebi em troca o seu carinho. Confesso que quase não tive forças para deixá-la. Porém, logo mais estarei ao seu lado. Digo mais que só me afastarei para vê-la, mais feliz do que nunca, assistir a minha volta. Você que ama sabe o que é a dor do afastamento e a suprema alegria da volta. Nada é mais belo do que a volta para a Bem-Amada.


Outra confissão que faço a você, aos que não conhecem certos detalhes da minha vida, é que a minha esposa sabe que amo Alcinéa Maria e não sente ciúmes, e fica feliz sabendo que a minha Bem-Amada é feliz ao meu lado.


Como hoje a Bem-Amada está fazendo aniversário, a minha esposa vive comigo os mesmos momentos de felicidade e de alegria.


Um dia magnífico, o de hoje. Alcinéa Maria, a de cabelos cor de mel, de olhos grandes e castanhos, completa quatro anos dentro da sua inocência de anjo.


Deus te abençoe, minha filha.




O poeta no casamento de Alcinéa


POEMA COM DESTINO À NORUEGA




Eu ando com a cabeça baixa e dolorida

tateando na sombra dos guindastes

o corpo flácido das mulheres das docas

dentro das noites do cais.



Por que passam por mim tantos

marinheiros, navios, ondas balouçantes?



Se eu pudesse

descansaria a cabeça dolorida

num saco, num fardo, numa caixa,

depois escreveria um poema simples

e montava-o na onda com destino à Noruega.



E a moça loira que o lesse ao sol da meia-noite

não saberia nunca que sou negro, fumo liamba

e tenho as mãos revoltadas e calosas.



(Autogeografia )





POEMA



Gestos de mãos-violinos

saindo das ondas da tarde.



O adeus das crianças adultas

suicidando-se em massa.

O último pombo branco

fugindo do pensamento pacífico.

O coração fruto boiando no lago

cheio de lama da última noite.



Gestos de mãos-violinos

morrendo nas ondas da tarde.

Já não há música

nem poetas

nem Debussy

nem a moça de tranças

para enxugar as lágrimas de Deus



Nas ondas da tarde

sumiram os gestos.



O PEQUENO JARDIM DO POETA POBRE






Meu jardim é um jardim de poeta pobre.

É um jardim pobre.



Tem apenas uma roseira solitária

e um pouco de verde onde

descanso a vista cansada e míope.



As rosas

às vezes

me comovem

e acendem lágrimas

em meus olhos. Mormente

quando recordo momentos vividos

da infância perdida ou nunca existente.



Também a juventude sofrida

marcada pela vida

abriu feridas

criou impedimentos

que jamais foram transpostos.



As rosas

quase sempre trazem recordações

fazendo doer sofrimentos passados

e a roseira é um espelho da minha solidão.



Talvez por isso fico horas e horas

olhando o jardim

até que o verde enxugue minhas dores.



Certas ocasiões converso

com o meu jardim modesto e feio

mas incrivelmente meu

como minhas têm sido

as mágoas que plantei.



Quando há luar

as sombras do meu jardim

tornam-se mais sombrias

ficam mais nítidas

e desenham pelo chão

arabescos - mensagem indecifrável

das minhas desesperanças coletivas.



Quando é dia

o meu jardim de poeta pobre

fica nu.

Nuzinho de carinho.

Não merece uma olhar de quem passa.

Não acorda nenhuma atenção.

Mas eu sei que ele tem vida

está ali à espera de mim

para receber o meu silêncio.



Somos tristes. Temos sentimentos comuns.

Guardamos segredos só nossos.

Muitas vezes ficamos imóveis

olhando a rua

os carros os casais os homens solitários

povoando de buzinas e de passos

de palavras e de ruídos o espaço adjacente.



Certa manhã minha ternura estava débil.

Então a roseira me ofertou uma rosa vermelha.

Acolhendo-a com emoção de amante.

Depositei-a nas mãos

daquela que haveria de vir.



Meu jardim também serve

para penitências.

Debruço sobre ele os meus singularíssimos pecados

e transponho perdoado

o verde e a roseira.



Encontro sempre com Deus no meu jardim à noite

principalmente se há luar.

Talvez para nutrir a lição de humildade

que Ele e eu oferecemos

inutilmente aos homens.

talvez para acender melhor

o claro amor

que exibimos aos olhos indiferentes

dos que passam sem perceber o pequeno jardim

vivendo no mundo.



E eu que sou terno

bom

e sei rezar um verso.




 
 
O POETA ADOTA OUTRO CAIS


Há uma canção permanente em meus ouvidos,

- São as ondas batendo na pedra no cais,

do velho cais natal que abandonei.

Não é saudade não, meu cais antigo.

É esse desejo de fuga, essa inconstância itinerante

de marinheiro, de onda, de verso.

Por isso vim agora, cais natal.

Não é ingratidão, não; é esse desejo de paisagem,

de rever outros portos.

Não bem rever, assistir ao parto de outro cais

- um cais mais novo, mais humano,

mais pesado,

carregado de idealismo e de metais,

com apitos de locomotivas egressas

do ventre da montanha,

- Um navio imenso fecundando as entranhas

de outros navios menores,

na cópula pesada do minério.

Não mais os bares das docas,

- agora o barracão.

Não mais os marinheiros bêbados,

- agora o operário suarento.

não mais o ranger obsoleto dos guindastes,

- agora a sinfonia das modernas britadoras.

Não mais o velho cais natal que abandonei.


Fac-símile de texto publicado no jornal O Amapá - anos 50)

 





POEMA PARA ALCY




Anjos, Serafins,

Querubins:

as hostes te disputavam mas,

por bondade divina,

te deixaram conosco

por 66 anos.





Invejavam teu imenso amor

e sempre diziam ao Pai:

o que faz esse anjo torto de Peixe-Boi

naquele planeta equatorial escrevendo crônicas,

redigindo ofícios e despachando papéis do governo?

O que faz esse Anjo Bêbado naquele

planeta onde crianças passam fome

e são assassinadas ?

Ele é um de nós, Pai,

mas aprendeu a beber uísque

e a fumar cachimbo.



O Anjo Alcy amava os jardins,

os dias chuvosos e os tantos filhos que teve

com as mulheres que amou.

Apesar de anjo da mais alta hierarquia,

fez questão de pousar na terra e

viver perto do rio-mar

somente para imaginar-se na imensidão

amazônica e navegar até a Noruega.

Sim, o anjo Alcy gostava das caboclas

ribeirinhas, das moças do cais e

sonhava com as deidades nórdicas

que emergiam dos seus poemas

- que sempre contavam com a visita

dos anjos mais puros e loucos do universo.

(Paulo Tarso Barros)