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7 de ago de 2010

O FAZER LITERÁRIO

Qual o sentido de fazer e ler literatura hoje? 


Num mundo cada vez mais veloz e fragmentado, com o encurtamento das distâncias e o encolhimento do tempo, faz sentido ainda a fabulação literária?

Por Ítalo Meneghetti



Nos diversos lugares aonde vou, sempre encontro alguém disposto a me perguntar se existe algum sentido para a literatura no mundo contemporâneo. Confesso que a resposta é, a um só tempo, óbvia e complexa. Explico. A força do pensamento literário é inegável em qualquer tempo e lugar. Por isso, óbvia a resposta. Porém, a literatura se constrói da substância mais abstrata do pensamento humano e, portanto, num mundo cada vez mais materialista, sem ideais nem sonhos, no qual o imediatismo tem sido a marca mais consumida e consumada das sociedades, pode ser que a literatura esteja fora de lugar e tempo. Vejamos.

Todos sabemos que o ato da leitura literária é sempre uma viagem. Mais ainda: que escrever literatura é verdadeira ousadia e desafio. Que o digam os escritores de carreira. Afirmam os neurolinguistas que a escrita literária mobiliza toda a nossa capacidade neuronial, bem mais do que indecifráveis equações matemáticas ou mirabolantes jogadas de xadrez. O texto literário por escrever é a requisição cerebral em toda a sua complexidade, verdadeiro exercício de comunicação entre neurônios, algazarra de sinapses em nossa massa cinzenta.

Se a leitura do texto literário é sempre um acontecimento especial em nossas vidas e que pode ser, definitivamente, marcante e transformador, imaginem o que a escrita do texto literário deve ser na vida de alguém?

Verdadeiro impacto, a escrita do texto literário desloca a pessoa para dimensões impensáveis de si mesma. A remete a lugares da alma nunca antes sondados. Atiça o espírito no rastro da luz, ainda que o texto só "fale" de trevas (humanas), como em Charles Bukowski, Plínio Marcos e Nelson Rodrigues, por exemplo. Afinal, literatura não é religião e nem se pretende, no sentido institucional e formatador de pessoas. E espírito é bem mais termo para expressar a potência da mente humana diante do enigma da existência do que conceito dogmático de falaciosos discursos sobre quem somos em nome de uma noção de Deus e todo o assédio e sanha financeira e política que isso pode gerar.

A Literatura não é religião. E nem a tem. É bem mais: é o nada diante do tudo. Pois o escritor quando debruçado sobre a sua página em branco é o próprio enigma humano diante de si. Nenhuma resposta. Certeza alguma. Somente indagações e a doce esperança da linguagem no acalanto macio do papel ou no acolhimento luminoso da tela. Nada mais do que um caminho de ideias por percorrer. Rumos principais. Desvios vicinais. Atalhos. Trilhas. Picadas.

Escrever é uma aventura. Talvez a maior da jornada humana em sua travessia. É coisa para poucos, embora existam muitos escritores no mundo de agora. Por que tanta gente, mais e mais, quer ser escritor? O que atrai tanto nessa solidão de alguém trancado num lugar imitando com a linguagem as realidades da chamada realidade? Que estranheza é essa que a tantos seduz?

O número de oficinas e oficineiros da escrita literária tem aumentado exponencialmente. E as publicações sobre como se tornar escritor? A cada ano, dezenas de novos títulos aparecem no mercado mundial, o que sugere uma sedução global pelo fazer literário. E aqui uma recomendação de quem adora ler e analisar tais manuais: de todos os que me passaram pelas mãos (e são tantos), o que mais me impressionou por seu vigor de escrita, bom texto, simplicidade, lucidez literária e sabedoria na escolha dos assuntos que vão desfilando em nossa leitura como bons causos contados ao sabor de fogueira em terras mineiras é o Breve manual de estilo e romance, do ficcionista mineiro Autran Dourado, publicado pela Editora UFMG, e que me foi enviado de Belo Horizonte por Eugênio Drumond (www.livrariahumanidades.com.br), meu querido amigo e livreiro virtual que encontra tudo e todos no mundo literário.

Voltando lá para o início deste artigo: qual o sentido de fazer e ler literatura no mundo de hoje? Cada livro é uma cápsula de sonho e possibilidade na qual o escritor cuidadosamente alojou a sua alma e o leitor a recebe no ritual de procurar as pistas para o enigma que toda história encerra e que todo escritor representa. Talvez, nessa passagem de escritor a leitor, resida a magia e encanto do livro de literatura. É possível que neste deslocamento encontremos uma articulação de sentido tanto para a feitura do literário quanto para sua leitura, ainda que num mundo de escassez da sensibilidade.

Apesar de solitário, um escritor jamais está sozinho. Tem em suas mãos a melhor ferramenta que o artifício humano criou: a linguagem. Com ela pode mover o mundo. Todas as gentes. Todos os lugares. Todos os tempos.

A linguagem literária nas mãos do escritor e nos olhos do ledor parece ser a saída para um mundo apressado que correu sem preparo e fôlego até o fim da rua e descobriu que não seria fácil sair dela. Pelo menos assim indicam as placas de sinalização e a muralha atravessando o caminho.

Existem escritores que declaram em entrevistas só permanecer vivos porque escrevem. Também existem leitores que nas rodas de leituras revelam que só estão vivos porque praticam a leitura literária. Há livros que são escritos não para impedir a morte, mas para que possamos ultrapassá-la e encontrar algum sentido adiante. Certos livros passam a ocupar o papel de amigos, conselheiros, parentes próximos. Outras vidas dentro da nossa. E é com o auxílio dessa representação que muitos de nós conseguem viver.

Portanto, se alguém lhe perguntar se ainda faz sentido a fabulação literária, não se apresse em responder. Parece não haver resposta. Dê um sorriso qualquer como desculpa e na primeira esquina da rua desapareça na linguagem, diante do perguntador. A literatura nos desmaterializa. Ele entenderá.
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Ítalo Meneghetti é doutor e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura (Teoria Literária) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor universitário, atualmente responsável pelas disciplinas de Literatura Brasileira, Teoria Literária e Metodologia da Pesquisa Científica na graduação de Letras das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Criou e ministra o curso de formação em Analista Literário pela Casa da Palavra em Santo André. Trabalha como pesquisador e consultor autônomo, na interface cultura e ambiente, junto ao Terceiro Setor, atuando no projeto de criação da Fundação Mantiqueira, no sul de Minas Gerais. Escreve os blogs www.cadernosdoprofessoritalo.blogspot.com e www.lavradapalavraitalobruno.blogspot.com. Contato: (italo.meneghetti@gmail.com).

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