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28 de mai de 2006

Artigo sobre o escritor Humberto de Campos

HUMBERTO DE CAMPOS, O QUASE ESQUECIDO


 
Minha prima Amparo Coelho, que é integrante de duas academias de letras, presenteou-me recentemente com uma bela e surpreendente obra, de sua autoria, sobre a vida do escritor maranhense Humberto de Campos (1886-1934), famoso autor que, tendo nascido num povoado do interior do Maranhão, chegou a ser jornalista, deputado federal e membro da Academia Brasileira de Letras. Tudo o que eu sabia de Humberto de Campos aprendera no curso primário, nas antigas coletâneas de leitura – onde li um texto antológico, muito comovente, sobre o cajueiro que ele havia plantado, em Parnaíba, no Piauí, do qual se despedira aos treze anos, escorraçado pela pobreza, quando foi enviado pela mãe, a viúva Ana de Campos Veras, para trabalhar em São Luís, na Casa Trasmontana, onde lavava garrafas - e onde viu (mas nem tinha idéia de quem se tratava nem da importância que viria a ter) o grande poeta Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, autor de Guesa errante, que morreu na miséria, vendendo as pedras do muro de sua casa. Era doutor, estudara em Londres e viera purgar as dores na terra natal, que só valorizaria sua literatura de vanguarda muito tempo depois.
Humberto de Campos Veras, como a maioria dos autores brasileiros, hoje não tem editor e os seus livros, já velhos e empoeirados, sobrevivem ocupando prateleiras de algumas bibliotecas e são poucos os que sabem da sua existência, principalmente os jovens. Ele faz parte, hoje, do rol de escritores que foram muito importantes no seu tempo, estavam presentes nas páginas dos jornais, através de crônicas e artigos; eram citados e admirados. O poeta Carlos Drummond, jovem ainda, quando chegou ao Rio de Janeiro, só ouvia falar de Humberto de Campos, contemporâneo de outro escritor que hoje ninguém mais lê: Coelho Neto. Eles não constam mais dos livros de textos usados nas escolas. Estão olvidados literariamente e só são citados por pesquisadores e um ou outro saudosista. Coelho Neto, prolífico autor de centenas de obras, era sinônimo de literato, no mais amplo sentido, mas o estilo, rebuscado e grandiloqüente, ficou obsoleto. A linguagem, cheia de pérolas e diamantes da língua de Camões, deixou de interessar aos leitores que preferem a simplicidade e o texto leve. O Modernismo de 22, os seus seguidores e as vanguardas que sobrevieram, ajudaram a sepultar muitos que ainda escreviam como Eça de Queiroz e outros lusitanos. A dinâmica da língua, dos estilos e dos costumes é inexorável.
O livro Humberto de Campos – evocações de uma vida, escrito com a paixão de uma fã e a experiência e o conhecimento que Amparo Coelho adquiriu, como pré-requisito para o seu ingresso na Academia Parnaibana de Letras, despertou-me a atenção, fez-me buscar as obras referenciadas e esmiuçar um pouco mais a existência desse autor. Há fotografias das casas e dos locais onde ele nasceu, viveu e trabalhou. Seu velho cajueiro (hoje, em 2006, com 110 anos) também ainda resiste, combalido, maltratado, exausto, mas ainda dando frutos que se espalham pelo Brasil . A autora, que foi promotora de justiça em Parnaíba, onde reside, visitou os locais onde Humberto de Campos passou parte de sua infância, fez seus estudos e despertou o interesse por literatura. Menino pobre, órfão aos seis anos, a partir dos doze anos desempenhou funções humildes, como ajudante nos comércios, onde varria, espanava, lavava garrafas, levava encomendas, dava recados; ajudava a mãe em tarefas domésticas de costura, dormiu ao lado de forno de padaria, foi aprendiz de tipógrafo em obsoletas máquinas impressoras, passou fome e privações. Aos 16 anos estava em Belém, depois de abandonar Parnaíba. Também viveu algum tempo no Amazonas, num seringal, onde tenta fazer um dicionário escrevendo cada verbete em papel de embrulho, pois não tinha dinheiro para adquirir um livro – mas adoece de febre palustre e retorna a Belém, começa a escrever e torna-se colaborador do jornal A Província do Pará, trabalha na Prefeitura de Belém, de onde tem de fugir por causa de problemas políticos, indo residir no Rio de Janeiro até sua morte.
Na capital federal, graças à amizade do conterrâneo Coelho Neto (que viria a ser seu compadre) e ao interesse despertado pelos livros e artigos, sua vida muda radicalmente. Em 1920 assume uma cadeira na Academia Brasileira de Letras; em 1927 é eleito deputado federal pelo Maranhão, sendo reeleito em 1930, para um segundo mandato sem pelo menos visitar o seu Estado, tal era a sua popularidade e reconhecimento. Porém, a perseguição política novamente interfere com a vida do escritor, que já vinha apresentando graves problemas de saúde. Seus últimos anos não foram fáceis, como também não o foram a infância e adolescência.
Escritor dotado de singular capacidade de superar empecilhos, soube, como ninguém, extrair lições valiosas, registrando tudo na vasta obra produzida. Sua prosa fluente, direta, elegante, cheia de observações e minúcias - cenas de vida que nos são mostradas como se fossem um filme, comovente e sincero, pois o autor não deixa de enumerar todos os entraves, dissabores, assim como os eventos de humor - quase nada escapou de sua invejável memória. É muito difícil encontrarmos uma personalidade com a audácia de expor a sua vida como o fez Humberto de Campos, garoto que nasceu num povoado chamado Miritiba, atualmente batizado com o seu nome, mas nem por ostentar a denominação famosa deixou a sua condição de pobreza a que são relegados muitos municípios brasileiros, principalmente nordestinos, onde o povo é humilhado por políticos inescrupulosos e empresários corruptos.
O que me chamou a atenção e me deixou surpreso foi como uma pessoa que teve tudo para ser apenas mais um pobre, semi-analfabeto e obscuro cidadão conseguiu ser um vitorioso. Para que se tenha uma idéia de quem foi ele em seu tempo, imaginemos o escritor Luís Fernando Veríssimo atualmente: Humberto foi assim naquela época, num país de analfabetos e sem os modernos meios de comunicação. As crônicas e artigos que escrevia diariamente eram publicados em dezenas de jornais; os livros se esgotavam rapidamente; era amado pelo povo, que se comoveu quando ele morreu. Só que o filho de Érico Veríssimo, intelectual e escritor famoso, foi alfabetizado em inglês, nos Estados Unidos, e só aprendeu o português posteriormente. Tinha biblioteca, pedigree, estudou em boas escolas, conviveu com pessoas de alto nível social e intelectual. Imaginemos o pobre Humberto, estudando na velha cartilha numa escola de Parnaíba onde não existia nenhum conforto (um igarapé e o matagal eram os banheiros), brincando na lama e nas lixeiras, tirando água de poço, onde não havia livros nem intelectuais, mas estivadores, agricultores, prostitutas, bêbados e valentões, quase todos analfabetos. Mesmo assim, dentre os colegas da sua pobre escola piauiense, saíram: um governador, deputados, diplomatas, altos funcionários e um escritor integrante da ABL - gente que tinha tudo para não ser ninguém.
Humberto deixa pistas sobre o seu aprendizado e o conhecimento que adquiriu: ele gostava de ler, não de estudar - principalmente naquelas escolas precárias, onde a palmatória, os castigos e humilhações eram permitidos e até estimulados. Quando teve oportunidade, escolheu bons livros, passou a conviver, embora tardiamente, com pessoas de bem; escolhia autores e assuntos relevantes, conforme nos informa em algumas passagens de suas obras, principalmente nos dois volumes de Memórias – um dos quais incompletos, publicados após sua morte. Dentre os livros autobiográficos nacionais que já li, foi o que mais me chamou a atenção, juntamente com o romance Cazuza (este um verdadeiro sucesso editorial, com dezenas de edições e muito lido até os dias de hoje), do também maranhense Viriato Corrêa (1884-1967), obra que retrata e questiona o ensino da sua época, descreve o estilo de vida, costumes e brincadeiras do final do século XIX e foi publicado em 1938. Assim como Humberto, Viriato, nascido num povoado chamado Pirapemas, foi jornalista, deputado e membro da Academia Brasileira de Letras. Diferente de Humberto, porém, Viriato estudou em boas escolas de São Luís, conviveu noutros ambientes mais proveitosos e concluiu o curso de direito no Rio, depois de passar pela faculdade do Recife.
Se você quer conhecer o livro sobre a bela e comovente história do escritor Humberto de Campos, entre em contato com a autora pelo e-mail amparo.coelho@bol.com.br

Texto: Paulo Tarso Barros é escritor e professor – http://paulo.tarso.blog.uol.com.br/

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