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14 de ago de 2006

CRÔNICA DE PEDRO PAULO MATOS RIBEIRO

Alguém aí vai pro Tibúrcio?
Pepê Mattos (*)

Luly Rojanski e Pedro Paulo

É com essa pergunta muitas das vezes disparada a meio tom (ou quase sem tom nenhum, dependendo do humor do cobrador e muito de vez em quando do motorista) que os passageiros do ônibus da linha Zerão-Amazonas se deparam todos os dias quando o coletivo da empresa Cidade de Macapá adentra os limites do bairro Zerão.
As feições dos passageiros quase todas se voltam para o emissor da pergunta. E em muitas delas se nota algo de desconcertante ou desaprovador: é porque a maioria não reside no tal Tibúrcio. E, portanto, ai de quem para ali achou de desencavar moradia.
Acontece que o tal Tibúrcio é uma área (vamos dizer assim) do bairro do Zerão e que faz parte (ou acredito que faça) do itinerário da linha citada.
E os usuários, inclusive eu, achamos extremamente longo o trajeto da linha Zerão-Amazonas. Senão vejamos: saindo do Zerão o mesmo segue para o centro da cidade, via São Camilo. Em seguida vai para o norte da cidade, até o (conjunto residencial) Amazonas, mas antes faz um desvio ali na altura do bairro São Lázaro se embrenhando por este, depois pelo Infraero I, saindo na BR 156. Chegando no Amazonas faz o roteiro inverso, ressaltando-se que ainda passa mais uma vez pelo centro da cidade. Segundo motoristas e cobradores dessa linha, o itinerário total leva duas horas e meia.
E ainda tem que passar no tal Tibúrcio, o que provoca nos usuários um misto de perplexidade e resignação, já que não sabem se este desvio pelo Tibúrcio faz parte da linha ou não, pois se fizesse, todos teríamos que aceitar como tal. Porém, o que vale na prática é que se houver algum passageiro para lá, os motoristas o deixam lá; caso contrário, não – o que é um motivo de alento para os demais passageiros. Só que esquece-se, aqui, dos demais moradores tiburcianos que necessitam usufruir do seu direito de ir e vir: se estiverem no trajeto centro-bairro ainda são deixados em seu destino – no Tibúrcio; mas se estiverem querendo ir para o centro terão que se deslocar até a entrada da área, já que dificilmente os ônibus que saem do bairro adentram ali. Fica-se à mercê do humor do motorista. Já os usuários da linha Universidade (que na minha opinião deveria se chamar Universidade-Centro-São Camilo) não têm esse tipo de problema. Ou não tinham.
Moro no Zerão (cujos limites geográficos desisti de entender, já que em meu endereço chegam correspondências onde se lê Zerão, Jardim Marco Zero e Universidade) desde dezembro de 2005 e nunca tinha visto o ônibus da linha Universidade adentrar a área do Tibúrcio. Pois dia deste o fez. Não sei se por graça do motorista ou pra fazer média com uma passageira um tanto espevitada que subiu ali pela altura do centro da cidade.
Era uma velhinha assaz falante e animada. Logo quando entrou foi logo dizendo entre gracejos ao motorista: “Meu filho não quero nem saber se este aqui vai lá pro Tibúrcio, mas eu vou pra lá e você vai me deixar lá dentro”, o que fez com que os passageiros em sua maioria rissem. E ela ficou o tempo todo falando em alto e bom som que estava vindo duma reunião dum clube da terceira idade onde tinha dançado horrores e que ainda tinha muito gás pra essas e outras coisas. Bom, seja o que ela quis dizer com isso, mas todos os que estavam ali presentes deixaram suas preocupações e rabugices de lado e se puseram a matutar sobre o que diabos a dita senhora gostaria de gastar o gás que propagandeara aos quatro cantos do ônibus ter.
Chegando no bairro ela disparou ao motorista: “Meu filho você não se esqueceu de que eu moro no Tibúrcio, né?”. O motorista até que estava de bom humor. “Esqueci, não, minha tia. Pode ficar tranqüila”. “Ah, bem...”. E quando o ônibus já estava circulando pelo Tibúrcio, ela não se fez de rogada: “Ô, meu filho, pára ali naquela casa de portão cor de rosa, aquela que tem um jambeiro, isso... Obrigado, meu filho. Gente, boa noite pra vocês porque a minha está sendo muito boa e ainda vai ficar melhor, podem acreditar”. Desceu do ônibus entre sorrisos do jeito que subiu: falando pelos cotovelos numa alegria contagiante. E lá se foi ela puxando conversa com umas vizinhas que estavam conversando à frente de suas casas. E os passageiros, pelo menos dessa vez, não ficaram chateados por essa entrada no Tibúrcio devido a tão inusitada moradora que sacudiu o baixo astral naquela noite.
E quanto à razão do nome Tibúrcio descobri em alguns trechos de comentários que se tratava de um senhor que tinha um terreiro de candomblé por ali e cujo critério para denominá-lo assim ocorreu da mesma maneira que utilizaram para nomear o Muca e o Congós, que se tratavam de antigos moradores das respectivas áreas onde hoje se localizam os bairros que levam seus nomes.
Portanto, visitantes do bairro Zerão não se assustem se ao entrar no bairro ouvirem do cobrador ou do motorista: “Vai alguém pro Tibúrcio?”. Se estiverem exaustos de rodarem nesse coletivo desde o Amazonas, rezem com força pra não haver nenhum passageiro pra lá. Não que seja longo o tempo que ele circula lá, nem porque lá é feinho – pelo contrário, até que é uma área muito bem urbanizada. Mas, que demora um pouco mais, demora.
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(*)Professor e escritor

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